O Brasil é o maior importador de trigo da América do Sul e um dos maiores do mundo. Mesmo sendo um país com vocação agrícola reconhecida globalmente, o consumo interno de trigo supera consistentemente a capacidade de produção nacional.

Isso obriga o país a importar entre 50% e 60% do cereal que consome a cada ano, principalmente da Argentina e do Paraguai. Esse cenário, no entanto, está mudando em ritmo mais acelerado do que a maioria dos analistas esperava. 

A combinação de novas cultivares adaptadas ao clima tropical, expansão da triticultura para o Cerrado e crescimento do consumo interno de produtos à base de trigo está colocando o cereal em uma posição de destaque que raramente ocupou na história agrícola brasileira.

Entender onde o trigo brasileiro está hoje, quais são os gargalos que freiam seu crescimento e quais fronteiras estão sendo abertas é o que este artigo propõe. A cultura tem potencial para mudar de papel na matriz agrícola nacional, e os próximos anos serão decisivos para definir se essa mudança de fato se consolida.

Um retrato da triticultura brasileira

A produção de trigo no Brasil se concentra historicamente na Região Sul, especialmente no Paraná e no Rio Grande do Sul, que juntos respondem por mais de 90% da área cultivada. 

O clima temperado dessas regiões, com invernos frios e bem definidos, favorece o desenvolvimento do cereal, que tem exigências térmicas específicas para o florescimento e o enchimento de grãos.

Os dados da CONAB para a safra 2024 ilustram bem o tamanho atual da cultura:

Indicador

Safra 2024

Área plantada

Aproximadamente 3,2 milhões de hectares

Produção estimada

Cerca de 8 a 9 milhões de toneladas

Consumo interno

Aproximadamente 12 a 13 milhões de toneladas

Déficit (importações necessárias)

Entre 4 e 5 milhões de toneladas

Principais estados produtores

Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul

O déficit entre produção e consumo é estrutural e persistente. Mesmo em safras consideradas boas, o Brasil não consegue se auto abastecer. 

Essa dependência tem custo econômico direto, com bilhões de dólares em importações anuais, e representa uma vulnerabilidade estratégica em momentos de instabilidade geopolítica ou climática nos países fornecedores, como ficou evidente durante a guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, quando os preços internacionais do trigo dispararam.

Por que o Brasil ainda importa tanto trigo?

A dependência estrutural do trigo importado tem raízes em fatores históricos, climáticos e de política agrícola que se acumularam ao longo de décadas. Compreender essas causas é o primeiro passo para avaliar se e como elas podem ser superadas.

Clima como fator limitante no Sul 

A Região Sul, principal área produtora, enfrenta riscos climáticos significativos durante o ciclo do trigo. 

Geadas tardias, excesso de chuva no período de florescimento e espigamento, e a incidência de fusariose, doença fúngica favorecida por alta umidade, são os principais culpados pela variabilidade de produção entre safras. Em anos desfavoráveis, a produção cai drasticamente, ampliando o déficit.

Concorrência com culturas mais rentáveis

No Sul, o trigo compete diretamente com a soja de verão e o milho safrinha pelo interesse dos produtores. 

Como cultura de inverno, ele ocupa a janela entre as safras de verão, mas nem sempre oferece a rentabilidade necessária para justificar o investimento, especialmente quando os preços internacionais estão pressionados pela oferta argentina ou uruguaia.

Custo de produção elevado relativo ao preço

O trigo exige mais insumos por hectare do que culturas de menor ciclo, e o preço pago ao produtor brasileiro historicamente não compensou esse custo de forma consistente. 

A falta de mecanismos robustos de proteção de preço e a ausência de prêmios por qualidade em grande parte do mercado interno desincentivaram a expansão da área cultivada por décadas.

A virada: o trigo que avança para o Cerrado

A notícia mais relevante para a triticultura brasileira nos últimos anos não vem do Sul. Vem do Cerrado, especialmente do oeste da Bahia, do Mato Grosso do Sul e do Goiás, onde produtores irrigantes estão mostrando que é possível cultivar trigo de alta produtividade em condições climáticas que, até pouco tempo atrás, eram consideradas inadequadas para o cereal.

O trigo irrigado no Cerrado é cultivado no período seco, entre abril e agosto, aproveitando as baixas temperaturas noturnas e a ausência de chuvas para reduzir a pressão de doenças foliares. 

Com irrigação controlada, é possível manejar a lâmina de água de forma precisa, eliminando um dos principais fatores de risco da triticultura sul-brasileira.

Os resultados já chamam atenção. Lavouras no oeste baiano têm registrado produtividades entre 5 e 7 toneladas por hectare, muito acima da média nacional de aproximadamente 3 toneladas por hectare. 

Pesquisadores da Embrapa Trigo acompanham esse movimento com interesse, desenvolvendo e testando cultivares adaptadas às condições do Cerrado, com tolerância ao calor diurno e resistência às principais doenças da região.

Doenças: o maior inimigo da produtividade no campo

Independentemente da região, o manejo fitossanitário é o ponto mais crítico da triticultura brasileira. As doenças foliares e de espiga causam perdas que podem superar 40% da produção em anos favoráveis aos patógenos, e o controle eficiente é condição básica para qualquer nível de produtividade satisfatório.

As principais doenças que afetam o trigo no Brasil são:

  • Ferrugem da folha (Puccinia triticina): a doença de maior distribuição geográfica, capaz de se disseminar rapidamente em condições de umidade e temperatura moderada.
  • Ferrugem do colmo (Puccinia graminis): menos frequente, mas de alto potencial destrutivo quando ocorre em estádios avançados da cultura.
  • Fusariose da espiga (Fusarium graminearum): principal problema em anos chuvosos no Sul, compromete tanto a produtividade quanto a qualidade do grão pela produção de micotoxinas.
  • Manchas foliares (septoriose, mancha amarela): conjunto de doenças que reduzem a área foliar fotossinteticamente ativa, com impacto direto no enchimento de grãos.
  • Oídio (Blumeria graminis): doença de clima seco e frio, frequente no início do ciclo em regiões serranas.

A escolha de cultivares com resistência múltipla e o monitoramento constante do talhão são as principais ferramentas de defesa. 

Uma estratégia de manejo integrada, que combina cultivares resistentes, fungicidas aplicados nos momentos corretos e práticas culturais como rotação e eliminação de restos de cultura, é o que diferencia lavouras produtivas das que enfrentam perdas recorrentes. 

O portal Mais Agro traz um conteúdo detalhado sobre como manejar as principais doenças do trigo com orientações práticas para diferentes sistemas de produção.

Boas práticas agronômicas: o que define uma boa safra antes mesmo da semeadura?

Boa parte dos resultados da safra de trigo é determinada por decisões tomadas semanas antes de a semente entrar no solo. 

O planejamento da lavoura é onde os melhores produtores ganham vantagem, e ele começa pela escolha da cultivar certa para cada condição de solo, clima e janela de semeadura disponível.

Outros pontos que definem o potencial produtivo da lavoura desde o início:

  • Época de semeadura: atrasos na semeadura encurtam o ciclo da cultura e podem comprometer o enchimento de grãos, especialmente em regiões com primavera quente e antecipada.
  • Densidade de semeadura: populações inadequadas afetam o perfilhamento, a competição com plantas daninhas e a circulação de ar dentro do dossel, influenciando a incidência de doenças.
  • Adubação de base e cobertura: o trigo é exigente em nitrogênio, especialmente nos estádios de afilhamento e elongação. O parcelamento da adubação nitrogenada é prática recomendada para maximizar o aproveitamento e reduzir perdas por volatilização.
  • Tratamento de sementes: a proteção contra patógenos transmitidos pelas sementes, como carvões e fusariose, começa antes da semeadura e é fundamental para garantir um estande uniforme.

Uma discussão aprofundada sobre boas práticas de manejo para a triticultura, organizada por fase do ciclo e com foco nos fatores que mais impactam a produtividade, está disponível no conteúdo sobre boas práticas para a safra de trigo no portal Mais Agro.

Mercado e perspectivas: o trigo brasileiro tem espaço para crescer?

O cenário de mercado para o trigo brasileiro nos próximos anos combina desafios e oportunidades em proporções que raramente estiveram tão equilibradas. Do lado das oportunidades:

  • Demanda interna crescente: o aumento do consumo de pães, massas, biscoitos e ultraprocessados à base de trigo amplia o mercado doméstico, mesmo com mudanças nos padrões alimentares.
  • Valorização da qualidade: moinhos e indústrias de panificação pagam prêmios crescentes por trigo de alta qualidade tecnológica, o que abre espaço para produtores que investem em cultivares superiores e no manejo adequado.
  • Expansão do Cerrado irrigado: o potencial da região para produção de trigo de alta produtividade ainda está longe de ser plenamente explorado, e os resultados obtidos até agora sustentam o otimismo dos pesquisadores.
  • Política de estoques reguladores: o governo brasileiro tem sinalizado interesse em ampliar os estoques públicos de trigo como instrumento de segurança alimentar, o que pode criar demanda adicional e mais estabilidade de preços para o produtor.

O gargalo mais crítico continua sendo a qualidade, especialmente a proteína do grão e a força de glúten, parâmetros que definem o uso industrial do trigo. O Brasil ainda produz uma parcela significativa de trigo classificado como “brando”, de menor valor comercial, enquanto importa trigo “forte” para mistura. 

Ampliar a produção de trigo com melhor qualidade tecnológica é um dos objetivos centrais dos programas de melhoramento da Embrapa Trigo e das empresas privadas do setor.

Um cereal em transição, com potencial real de protagonismo

O trigo brasileiro ainda carrega o peso de décadas em segundo plano, mas os sinais de mudança são concretos. A expansão para o Cerrado, o avanço do melhoramento genético e o crescimento do mercado interno criam uma janela de oportunidade que o setor não tinha há muito tempo.

Isso não significa que os desafios desapareceram. Clima, custo de produção, dependência de importações e qualidade do grão continuam sendo variáveis que precisam ser trabalhadas com consistência ao longo de várias safras. 

Mas o trigo brasileiro tem, hoje, mais ferramentas disponíveis, mais pesquisa de qualidade por trás e mais interesse do mercado do que em qualquer outro momento recente de sua história.

Para os produtores que já cultivam trigo ou estão avaliando entrar na cultura, o momento pede planejamento técnico rigoroso, escolha cuidadosa de cultivares e atenção especial ao manejo fitossanitário. 

São esses elementos, mais do que qualquer fator externo, que vão definir quem colhe os frutos da expansão que está por vir.

Sobre o Mais Agro

O Mais Agro é o hub de conteúdo técnico da Syngenta, dedicado a levar informação confiável, análises de mercado, práticas de manejo e tendências agrícolas para produtores, consultores, pesquisadores e toda a cadeia do agronegócio. 

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