Reconhecido mundialmente, o Carnaval é um dos pilares da cultura brasileira, espalhando música, dança, cores e celebração por todo o país. Ao mesmo tempo, a forma de se relacionar com a festa varia entre os brasileiros. A pesquisa “Ainda somos o país do Carnaval?”, realizada pela MindMiners, mostra que 43% dos entrevistados costumam acompanhar a festa de alguma maneira, enquanto 57% preferem não se envolver diretamente com a programação.
Entre quem participa, os formatos são diversos: 35% acompanham pela TV ou por plataformas digitais, e 18% escolhem vivenciá-la de perto, em bloquinhos, festas e desfiles. Para muitas famílias, especialmente aquelas com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Carnaval também pode ser uma oportunidade de buscar experiências mais adequadas, inclusivas e confortáveis, respeitando diferentes sensibilidades e formas de participação.
No entanto, a festa também pode representar obstáculos significativos devido ao excesso de estímulos sensoriais, como sons altos, multidões e mudanças na rotina. “Isso acontece porque algumas crianças autistas apresentam hipersensibilidade sensorial, uma característica do Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), que afeta a maneira como o sistema nervoso recebe e interpreta estímulos auditivos, táteis, visuais e vestibulares. Dependendo do caso, a pessoa pode perceber estímulos de forma intensificada ou precisar de um volume maior de estímulos para processá-los”, explica a terapeuta ocupacional e orientadora genial da Genial Care, Mariana Asseituno.
Apesar dos desafios, é possível tornar o Carnaval uma experiência inclusiva e prazerosa para crianças autistas, seja em casa ou nos blocos de rua. Com planejamento adequado e estratégias específicas, as famílias podem garantir que os pequenos aproveitem a folia de forma confortável e segura.
Por que o Carnaval pode ser desafiador para crianças autistas?
Segundo Mariana Asseituno, o principal motivo da dificuldade e desconforto da época do ano é a quantidade de estímulos sensoriais. “Quando uma criança possui essa condição sensorial, pode experimentar uma percepção exacerbada de estímulos ou necessitar de estímulos adicionais para perceber qualquer forma de sensação. Por isso, multidões, barulhos, luzes brilhantes, fantasias e um excesso de estímulos sensoriais ao mesmo tempo, podem criar sobrecarga sensorial e uma experiência desgastante”, completa.
Outro desafio é a mudança na rotina, que pode impactar diretamente a dinâmica familiar durante o feriado e criar angústias. Dessa forma, a previsibilidade é a chave para comunicar o que está por vir e criar compreensão da criança sobre a época do ano.
Participação ativa e desenvolvimento de autonomia
Ao falar sobre um Carnaval mais acessível para crianças autistas, é importante refletir sobre diferentes formas de apoio: desde a organização do ambiente até a preparação da criança para lidar com variações do mundo. “A autonomia envolve ensinar a criança a reconhecer seus próprios limites, comunicar desconfortos e fazer escolhas sobre como e quando participar”, explica Mariana Asseituno.
Nessa perspectiva, o foco está na ampliação do repertório da criança, permitindo que ela desenvolva, gradualmente, estratégias para regular suas respostas sensoriais e emocionais. Essa abordagem ganha relevância porque muitos modelos tradicionais de cuidado ao TEA concentram esforços em ambientes altamente controlados. Com o tempo, isso pode restringir experiências e reduzir oportunidades de aprendizado.
O progresso clínico está diretamente relacionado à capacidade de a criança participar de situações cotidianas com crescente independência, inclusive quando decide se afastar, pedir uma pausa ou ajustar sua forma de participação. Ao planejar a vivência no Carnaval, vale a reflexão: as escolhas feitas estão ampliando as ferramentas da criança para cuidar de si em diferentes contextos?
Como aproveitar o Carnaval em casa
Para muitas famílias, aproveitar o feriado em casa é a melhor alternativa, e isso não significa abrir mão da diversão. Criar um clima de Carnaval no ambiente doméstico pode ser mais confortável e igualmente especial para a criança.
A recomendação é conversar previamente sobre as mudanças na rotina e usar recursos visuais para explicar as atividades planejadas. “Um baile de Carnaval pode acontecer na sala ou no quintal, com luzes suaves, músicas escolhidas com cuidado e brincadeiras que respeitem o interesse da criança”, sugere Mariana Asseituno.
Vale convidar pessoas próximas, incentivar fantasias confortáveis e adaptar o espaço, reduzindo estímulos como sons altos, confetes ou adereços que possam causar desconforto sensorial. Danças livres, fitas coloridas e pequenos instrumentos musicais também ajudam a tornar o momento lúdico e prazeroso, sempre no ritmo da criança.
Carnaval na rua: cuidados para ter mais conforto e segurança
Se a escolha for cair na folia, é importante se preparar para tornar a experiência mais tranquila. O Carnaval muda a rotina, e a agitação dos blocos pode ser intensa, especialmente para quem tem mais sensibilidade a estímulos. A terapeuta ocupacional Mariana Asseituno compartilha alguns cuidados que podem garantir que a diversão aconteça de forma confortável e segura:
1. Escolha blocos que combinam com a criança
Se prefere um ambiente mais tranquilo, procure blocos infantis ou matinês, que costumam ser menos lotados ou tornam possível se afastar da agitação quando necessário. Algumas cidades no país já oferecem eventos especialmente adaptados para crianças autistas.
2. Reduza o impacto do barulho
Mesmo que a criança não demonstre incômodo com sons altos, levar abafadores pode ser uma boa alternativa para evitar desconfortos inesperados. É importante testar o acessório antes e garantir que a criança esteja familiarizada com ele.
3. Priorize fantasias confortáveis
Algumas crianças podem se incomodar com tecidos ásperos ou texturas diferentes. Teste as fantasias com antecedência e, se necessário, opte por roupas macias e coloridas que tragam conforto. O essencial é respeitar as preferências da criança.
4. Evite adereços desconfortáveis
Máscaras, chapéu, óculos e tiaras podem causar estranhamento, tanto pelo estímulo visual quanto pelo contato tátil. O ideal é apresentar o acessório antes e, caso a criança não se sinta confortável, simplesmente não utilize.
5. Explique o que vai acontecer
Criar um roteiro do evento, descrevendo cada etapa da experiência com narrativas sociais, pode ajudar a criança a se sentir mais segura e preparada.
6. Facilidade no acesso a banheiros
Necessidades fisiológicas podem gerar estresse e crises comportamentais. Certifique-se de que há um banheiro próximo e fique atento aos sinais da criança.
7. Observe sinais de sobrecarga
Além da sensibilidade sensorial, fatores como cansaço, fome e sono também podem impactar a experiência da criança. Caso perceba sinais de desconforto, priorize o bem-estar e evite prolongar a permanência no evento.
8. Facilite a comunicação
Se a criança usa Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), leve os recursos necessários para que ela consiga expressar suas necessidades e emoções.
Com planejamento, respeito às necessidades sensoriais e adaptações adequadas, é possível tornar a experiência mais confortável e prazerosa, seja dentro de casa ou nos blocos de rua. Priorizar o bem-estar da criança, oferecer segurança e criar um ambiente previsível são passos fundamentais para garantir que a folia seja inclusiva e especial. Afinal, a verdadeira celebração acontece quando cada criança pode participar do seu jeito, no seu ritmo e com conforto.
Por Letícia Carvalho



