Surgido nos EUA, o mercado de previsões oferece a intermediação de transações financeiras de apostas sobre qualquer coisa, de ganhadores do Oscar a vencedores de reality shows, passando por resultados de eleições e até mesmo pela guerra no Irã, o que eleva a polêmica em torno da regulação dessa atividade.

As casas de apostas eletrônicas que atuam no Brasil, organizadas no Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), tratam os mercados de previsões como “bets clandestinas” e cobram ações de regulação por parte do governo.

A parceria com a Kalshi oferecerá os serviços da plataforma americana para clientes da corretora Clear, marca da XP, que tenham conta internacional. O anúncio ocorre no momento em que a B3, dona da Bolsa de São Paulo, vem lançando produtos do tipo por aqui.

A Kalshi, disse à agência Bloomberg a cofundadora Luana, começará a oferecer contratos do tipo “sim ou não” atrelados à economia brasileira, em eventos como mudanças na inflação e nas taxas de juros do país.

A XP Investimentos informou ao GLOBO que o foco dos contratos de aposta que serão oferecidos “está em eventos financeiros e econômicos”, como o “fechamento do S&P 500 no fim de 2026”, o “próximo aumento da taxa de juros pelo Fed” (o banco central americano), “quando o Bitcoin atingirá US$ 150 mil” ou a “máxima” da taxa de câmbio entre o dólar e o real em 2026.

Os novos serviços serão oferecidos a “todos os clientes da marca Clear com perfil de investimento compatível e que possuem conta de investimento internacional na XP International”. Eles terão acesso aos contratos de aposta da Kalshi no “ambiente offshore” da XP, como mais uma opção de investimentos, informou a instituição financeira.

Luana ganhou visibilidade no início de dezembro passado, após a Kalshi concluir uma rodada de captação de investimentos — daquele comuns na trajetória de crescimento das startups — de US$ 1 bilhão. Com isso, a empresa que a brasileira ajudou a fundar, que ainda não tem capital aberto em Bolsa, foi avaliada em US$ 11 bilhões.

Considerando sua participação acionária, Luana teve o patrimônio estimado em US$ 1,3 bilhão, entrando para o clube dos bilionários — a revista Forbes considerou que a brasileira foi a mulher mais jovem a fazer isso sem receber uma herança.

Já a Kalshi ganhou fama ao transacionar contratos de aposta durante as eleições presidenciais americanas de 2024. Apenas no último Super Bowl — a final do campeonato nacional de futebol americano, considerado o maior evento esportivo anual dos EUA — a Kalshi movimentou US$ 1 bilhão em apostas, 27 vezes mais do que na partida de 2025, segundo o New York Times.

Um relatório do fim do ano passado da consultoria americana Eilers & Krejcik Gaming estimou que o setor poderia transacionar US$ 1 trilhão por ano nos EUA até o fim desta década.

O mercado de previsões, ou “mercado preditivo” ainda não tem regulação no Brasil. O IBJR cobra do Ministério da Fazenda, que regula as bets, o enquadramento da Kalshi, da Polymarket e dos demais concorrentes como casas de aposta, pagando taxas e seguindo as regras estabelecidas em 2024 para o setor.

Nos EUA, quem supervisiona as plataformas de mercado preditivo é a CFTC, órgão regulador do mercado de commodities e derivativos. Os segundos são títulos financeiros que “derivam” de algum ativo. É o caso dos contratos futuros lastreados em petróleo ou dos contratos futuros de dólar e juros. No Brasil, a supervisão fica a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão regulador do mercado).

A Kalshi foi pioneira, em parte, porque batalhou por uma regulação federal nos EUA — foram três anos de negociações, contou Luana em entrevista ao jornal Valor. Lá, as bets atuam sob regulação estadual, sendo legalizadas ou proibidas estado a estado.

O argumento da plataforma nascente foi que os contratos de aposta da nova plataforma eram “derivativos” e não apostas comuns. Assim, conseguiu autorização federal, como relata reportagem da seção The Athletic, do New York Times — que ressalta que a Polymarket chegou a ser banida no governo do democrata Joe Biden, mas recebeu autorização no governo Donald Trump; Donald Trump Jr. é membro dos conselhos tanto da Polymarket (outra gigante do setor) quanto da Kalshi.

Um dos argumentos para equiparar os contratos de aposta a derivativos é o fato de que vários dos eventos futuros objeto dos lances são indicadores econômicos. Mas 90% das transações da Kalshi são sobre esportes, segundo o New York Times.

Na mesma linha, a B3 conseguiu autorização da CVM para lançar três instrumentos financeiros diretamente no mercado nacional, sobre os valores de Ibovespa, dólar e Bitcoin. Os novos títulos poderão ser oferecidos apenas para “investidores profissonais”, que pelas regras do mercado brasileiro precisam ter mais de R$ 10 milhões em investimentos.

“A análise da CVM ocorreu sobre contratos derivativos que, na avaliação da área técnica, atendem às regras aplicáveis”, informou o órgão rgulador, em nota.

Pode haver risco em eleições

Antes mesmo do boom das plataformas americanas, desde 2020, a B3 já oferecia no Brasil “a Opção de Copom”. Segundo a dona da Bolsa brasileira, o título “segue, em essência, a mesma lógica dos mercados preditivos”. No fim de 2025, a B3 já havia lançado outras opções, como “as Opções de Política Monetária de FED (EUA), México e Europa”.

“Os mercados preditivos trazem inovações ligadas especialmente à oferta de uma experiência simplificada, e é fundamental, para os investidores, que essas operações aconteçam em um ambiente regulado”, diz a B3, em nota.

Para André Gelfi, diretor do IBJR, quando se restringe a ativos financeiros, como no caso dos produtos da B3, a situação “foge da alçada” da regulação das bets. Mas quando os contratos envolvem eventos esportivos, estão em claro desacordo com a regulação vigente no país desde 2024.

Segundo Jun Oyafuso Makuta, sócio da área de gaming e e-sports do escritório TozziniFreire Advogados, os modelos das casas de apostas eletrônicas e das plataformas de mercado preditivo são diferentes, mas, do ponto de vista do apostador ou do investidor, “não muda muito”:

— Não dá pra dizer que a Kalshi não seria concorrente dos sites de aposta.

O advogado chamou a atenção para o fato de que, ao ampliar os eventos sob apostas para além dos esportes, o mercado preditivio eleva a complexidade da regulação. No caso de eleições, por exemplo. No Brasil, a regulação é do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e há regras sobre a divulgação de pesquisas. E a divulgação de cotações de apostas sobre resultados eleitorais pode ter efeito semelhante ao influenciar decisões de voto.

A diferença entre as apostas de cota fixa, tipo as bets, e o mercado preditivo está mais na forma do que no conteúdo. No primeiro, as casas de apostas eletrônicas atuam como “bancas”. O usuário aposta “contra” a banca, que calcula os prêmios conforme as probabilidades , paga os vencedores e fica com o dinheiro dos perdedores.

Já no mercado preditivo, a ideia original da Kalshi foi equiparar as apostas a “derivativos”, títulos financeiros que “derivam” de algum ativo, como os contratos futuros de petróleo, câmbio e juros. Nesse caso, a plataforma faz a intermediação das transações entre os apostadores, mas não há uma “banca”.

Só que, diferentemente de um derivativo clássico, em que o ativo derivado é um valor financeiro ou até físico, o “lastro” dos contratos preditivos é a aposta em si. Na prática, um usuário aposta contra o outro — o perdedor paga a aposta ao vencedor.

Nos EUA, as plataformas foram autorizadas a funcionar, conforme determinadas regras para supervisionar os agentes, mas permitindo apostas sobre tudo. No Brasil, a CVM já deu autorização à B3 para lançar alguns derivativos do tipo, contrato a contrato, com lastro apenas em ativos ou valores financeiros.

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