Arlete Salles está com aquele incômodo que só os grandes atores sentem quando estão prestes a dar vida a uma nova personagem. Ela estará em Três Graças, a novela das 9 de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva que vai substituir o remake de Vale Tudo a partir desta segunda-feira, 20, na TV Globo. Na trama, Arlete será Josefa, uma mulher da mesma idade que a sua – 87 anos -, mas com uma cabeça muito diferente.

“Me falaram: ‘É uma velhinha’. Eu disse: Velhinha? Então, não vai dar [para fazer]”, diz a atriz, divertindo-se. “Josefa é uma mulher fisicamente cansada, maltratada, envelhecida. Uma mulher com dinheiro, com boa condição social, mas que teve uma vida difícil”, explica.

Em Três Graças, que tem direção artística de Luiz Henrique Rios, Josefa será mãe de Arminda, a grande vilã da novela, interpretada pela atriz Grazi Massafera. Mãe e filha têm uma relação conflituosa. Quem ampara a matriarca é a cuidadora e heroína Gerluce, confiada à atriz Sophie Charlotte, cuja mãe, Lígia, interpretada por Dira Paes, é vítima de um esquema de fraude em medicamentos comandado por Arminda e seu amante, Santiago Ferette, personagem de Murilo Benício.

“Não tenho uma filha cruel. Meus filhos [Arlete tem dois] são ótimos. Para mim, como intérprete, há momentos bastante difíceis. Tenho que desviar de quem eu sou, não deixar isso bater em mim. Nunca tinha vivido uma personagem que sofresse um massacre moral diário”, explica a atriz.

Por outro lado, Josefa, assim como a artista, traz o humor consigo. “Talvez isso dê ao público um encanto com a personagem”, diz Arlete. Josefa ainda é fiel a um segredo que pode movimentar a trama – e usa o esquecimento natural da idade como um trunfo contra a filha.

Arlete nem pensava em fazer uma novela neste momento, depois de encerrar a temporada da peça Ninguém Dirá que é Tarde Demais – a mais recente foi Família é Tudo, que terminou há pouco mais de um ano. Com contrato vitalício com a TV Globo, ela decidiu aceitar o convite para estar em Três Graças por dois motivos.

Um deles, ela diz, é moral. Não acha certo receber da emissora sem trabalhar. O segundo, é retomar a parceria com o autor Aguinaldo Silva, seu conterrâneo, com quem trabalhou pela primeira vez em O Outro (1987) e, depois, em Tieta (1989), Pedra Sobre Pedra (1992), Fera Ferida (1993), Porto dos Milagres (2001) e Fina Estampa (2011).

“Aguinaldo é nordestino assim como eu [eles são pernambucanos]. É um homem sorridente. Ele tem o humor inteligente no texto. Acho que eu estou mal acostumada com o riso do público”, confessa atriz, que declara pertencer “à classe dos comediantes”.

O autor deu a Arlete, entre outras personagens, a delegada Francisquinha, de Pedra Sobre Pedra, que assumia voluntariamente as funções do marido, e Carmosina, de Tieta, representante dos Correios que lia as cartas dos moradores da cidade usando o bico da chaleira.

A personagem de Arlete mais lembrada, sobretudo entre as novas gerações, é a ninfomaníaca Copélia, personagem de Toma Lá, Dá Cá, série de Miguel Falabella, de comicidade mais escrachada.

“Não pode ser aquele humor que fica só na superfície. Tem que provocar questionamentos no público. Isso Aguinaldo e Miguel sabem fazer muito bem. Com eles, posso enlouquecer um pouco mais com as personagens”, diz a atriz.

Arlete conta que sua relação com o humor começou na TV, quando atuou na primeira versão de Selva de Pedra, novela de Janete Clair, exibida em 1972. Ela era Laura, uma mulher rica e fútil, mas cheia de tiradas engraçadas.

Tudo se encaixou, segundo Arlete, também por uma questão astral. “Sou geminiana. Geminiano é muito triste e, consequentemente, é tão engraçado quanto triste”, opina. Com isso, contagiou os colegas e autores, na TV e no teatro. “Encontrei prazer fazendo humor. Fui ficando feliz com isso. Estou em um belo lugar. Sou uma comediante!”, reforça.

A última novela?

À vontade na entrevista, Arlete faz uma confissão à reportagem do Estadão. “Não vou colocar uma garantia. Mas, acho, que essa é a minha última novela. Neste momento da minha vida, que é um bom momento – nunca pensei que envelhecer fosse tão ruim e tão bom -, quero fazer teatro, filmes, seriados e apenas pequenas participações em novela. Tudo com calma, sem emendar um trabalho em outro”.

Para Arlete, a novela, em busca por uma perfeição estética, se tornou um produto “trabalhoso” de se fazer. A pulverização da audiência para outros conteúdos, no streaming e nas redes sociais, também colocou certa tensão no processo. “Precisa ter muita força e muito fôlego para segurar o público”, afirma.

A satisfação atual de Arlete tem sido ficar em casa. Gosta de ler, assistir a séries, cuidar de seus cachorros, alimentar os gatos, micos e gambás que passam por sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro. “Um dos meus filhos disse que eu estou envelhecendo bonito. De fato, estou mais presente e mais participativa [na vida da família]”, diz.

Ela conta que, atualmente, uma hora depois de se apresentar no teatro, já quer “estar deitadinha em sua cama”. “Antes, eu queria sair depois do espetáculo para jantar e tomar um drink. Hoje, saio às vezes. [O compositor] Lenine que escreveu certo: ‘Quando o corpo perde um pouco mais de calma’”.

Ao saber que Maria Bethânia agora começa seus shows às 7 horas da noite, Arlete afirma ter outra questão em comum com a cantora, que revela seu lado mais melancólico, ou “geminiano”, como ela prefere chamar. Assim como Bethânia, ela nunca gostou muito do entardecer.

“Às vezes, chorava quando o sol ia embora, sem saber o porquê. Eu ia me acabando junto com o fim do dia. Agora, até consigo reagir melhor”, conta.

Essa liberdade, para Arlete, veio com o passar dos anos – ela usa o verbo “envelhecer” de maneira natural. “Minhas angústias e minhas inquietações sumiram, Não me preocupa mais a opinião das pessoas. Não importa mais se o telefone não toca”, diz.

Aliás, o telefone foi um dos conflitos que ela deixou para trás. “Ai se esse telefone não tocasse às sextas-feiras! Eu pensava: Minha mãe diz que eu sou maravilhosa! Não aguento essa rejeição! (risos). Minha vida agora é suave! A paz invadiu o meu coração, como diz Gilberto Gil”.

Essa calmaria também se reflete no trabalho. Arlete observa as novas colegas de cena. Diz que Grazi Massafera é mais “tensa”, enquanto Sophie Charlote é “caladinha”. “Já fui assim também, em véspera de estreia. Penso que a novela vai dar certo. É uma história original. Aguinaldo vai jogar muito bem com a história. Não tem essa carga de ser um remake”, diz, citando Vale Tudo, reescrita por Manuela Dias.

A propósito, Arlete vê com espanto o julgamento que os telespectadores praticam nas redes sociais com atores, atrizes e autores – algo relativamente novo na engrenagem de participar de uma telenovela, sobretudo das 9. “É assustador. Pelo amor de Deus! Mas não vejo. Nem sei mexer”.

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