Confira trailer do game ‘Crimson Desert’

Confira trailer do game ‘Crimson Desert’. Crédito: Playstation

Os segundos iniciais de um trailer de Crimson Desert parecem genéricos: um herói rústico de cabelos desalinhados avança, espada em punho, por um mundo aberto de fantasia excepcionalmente belo e aparentemente vasto. Mas, após um minuto, a ação toma um rumo absurdo. Ele aparece saltando de paraquedas de uma fortaleza que desafia a gravidade, usando parkour para escalar um edifício medieval, andando de balão, transformando-se em uma criatura alada, saltando sobre barricadas de espinhos e fazendo curvas fechadas com um cavalo a galope.

Kim Dae-il, produtor executivo do jogo, disse em entrevista que espera que os jogadores sintam nada menos do que “como se estivessem em uma realidade inteiramente diferente”.

Os jogadores estão acostumados a associar um objetivo tão ambicioso ao trabalho de estúdios americanos de elite, como a Rockstar (criadora da série Grand Theft Auto), ou a estúdios japoneses consagrados, como a Square Enix (de Final Fantasy). Mas Kim, que cofundou o estúdio Pearl Abyss em 2010, faz parte de uma onda de desenvolvedores sul-coreanos que estão sonhando alto.

Por décadas, os videogames têm sido um esporte nacional não oficial na Coreia do Sul, onde a receita da indústria é estimada em US$ 14,6 bilhões — a quarta maior do mundo, atrás apenas de China, Estados Unidos e Japão. Alguns dos títulos mais populares são importados: StarCraft e League of Legends foram criados por estúdios da Califórnia.

Mas, da mesma forma que o k-pop e os k-dramas se tornaram exportações culturais lucrativas para a Coreia do Sul — uma onda nacional conhecida como Hallyu —, talvez agora seja o momento de falarmos em K-games. Nos últimos anos, os jogos coreanos Stellar Blade, Lies of P e The First Berserker: Khazan foram todos aclamados por sua ação de alta intensidade.

É uma mudança significativa.

Jogos para exportação

Em 2013, os conservadores políticos do país pressionavam por leis para classificar os jogos como um dos quatro principais vícios sociais, ao lado do álcool, das drogas e do jogo de azar. No ano passado, o presidente Lee Jae-myung já chamava os videogames de uma “exportação verdadeiramente autêntica”.

O desenvolvimento de Crimson Desert começou em 2018 como uma prequela de Black Desert Online, um jogo multijogador massivo (MMO) da Pearl Abyss que comandava mais de 40 milhões de jogadores registrados. O novo jogo de Kim é uma experiência de ação individual (single-player) mais bonita e responsiva, focada em um combate cinético.

Os confrontos intensos entre o protagonista Kliff e seus inimigos são repletos de “congelamentos” quase imperceptíveis na ação, que ocorrem exatamente no momento em que um golpe acerta o alvo. Isso dá às lutas um peso satisfatório, vibrando com a cadência de jogos de luta como Street Fighter 2, um favorito de Kim de sua época frequentando fliperamas no início dos anos 90.

Kim, de 46 anos, iniciou sua carreira profissional no final daquela década, no momento em que a Coreia do Sul emergia da crise financeira asiática. Após receber um pacote de resgate internacional de US$ 55 bilhões, o governo investiu pesado em infraestrutura de banda larga. As lan houses, conhecidas como “PC bangs”, espalharam-se rapidamente como espaços sociais informais onde os jovens podiam jogar em computadores potentes.

Sean Kim, de 49 anos, CEO da Neowiz — que desenvolveu Lies of P, uma releitura hiperviolenta da fábula de Pinóquio —, passou quase o ano de 1999 inteiro frequentando um PC bang.

Enquanto ele jogava o título de estratégia StarCraft em um ambiente esfumaçado, seus colegas desfrutavam de outros títulos on-line que aproveitavam a nova infraestrutura digital do país. A série de quiz QuizQuiz e o título de fantasia Lineage estiveram entre os jogos pioneiros que traçaram a trajetória da produção nacional: social, online e, frequentemente, gratuita para jogar. O jogo de batalha real PUBG: Battlegrounds alcançou sucesso global em 2017 seguindo esses princípios; foi a primeira experiência de muitos jogadores ocidentais com um título coreano.

Jogar em casa

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Agora, os hábitos de jogo da Coreia do Sul estão migrando para os consoles domésticos, afirma Darang Candra, diretor de pesquisa da Niko Partners. A nova safra de títulos coreanos, incluindo Crimson Desert — lançado para PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S nesta quinta-feira —, atende a esse mercado com experiências individuais graficamente resplandecentes e preços de categoria premium.

Assim como a produção audiovisual impecável das bandas de k-pop, há uma exuberância maximalista na mistura de apresentação deslumbrante e design frenético de Crimson Desert.

Kim, da Pearl Abyss, está ciente de que o jogo pode parecer superestimulante, por isso também priorizou momentos de paz. Sua parte favorita do jogo é uma cena em que o jogador observa uma cidade com ruas de pedra situada no topo de montanhas calcárias. É o lugar perfeito para ver o pôr do sol, disse ele, um momento que permite ao jogador “recarregar as energias e começar o dia revigorado”.

Parece coreano?

À primeira vista, Crimson Desert não parece carregar muitas marcas da cultura sul-coreana. O jogo se passa em um reino rústico e verdejante com o nome de Pywel. A primeira hora é repleta de palavrões, como se os diálogos tivessem sido extraídos de Game of Thrones. Kim, no entanto, reagiu à ideia de que o jogo não seria “coreano o suficiente”. Nas profundezas das áreas selvagens, os jogadores encontram templos budistas e culinária coreana. O combate, no qual o robusto Kliff desfere sequências de socos e chutes, foi inspirado no taekwondo.

“Acreditamos que, como somos coreanos e porque o jogo foi escrito por coreanos, ele naturalmente parecerá coreano”, disse Kim por meio de um intérprete em um escritório em Gwacheon.

O governo coreano aumentou seu apoio à indústria de jogos, afirmou Candra, observando que a Assembleia Nacional propôs vários projetos de lei no ano passado “visando reposicionar os jogos de uma atividade regulamentada para um setor cultural e industrial apoiado por políticas públicas”.

Iniciativas de games devem receber US$ 49,7 milhões de um fundo de US$ 477,4 milhões fornecido pela Korea Creative Content Agency (KOCCA). A indústria de radiodifusão, cujos filmes e programas de TV brilham nas telas há anos, receberá US$ 60,5 milhões.

Kim, o executivo da Neowiz, disse que os estúdios coreanos podem aprender com os sucessos de outras mídias. “O k-pop e os k-dramas populares no Ocidente baseiam-se frequentemente em visões estilizadas da cultura coreana moderna”, afirmou.

Os novos games da Coreia do Sul

O próximo jogo da Pearl Abyss, DokeV, parece explorar justamente essa ideia. É uma aventura cujo cenário evoca uma visão vibrante e praticamente utópica da Coreia do Sul em um futuro próximo. Um trailer foi embalado por canções electro-pop e coreografias de dança que poderiam acelerar o pulso de qualquer fã de K-pop.

Confira trailer do game ‘DokeV’

Confira trailer do game ‘DokeV’. Crédito: Pearl Abyss

Outros futuros lançamentos coreanos estão mais interessados em evocar a cultura histórica do país. Um trailer do RPG de ação Project TAL mostra um xamã em um hanbok branco realizando um ritual gut no topo das montanhas. Já o jogo de ação e aventura Woochi the Wayfarer é inspirado no romance clássico coreano A Lenda de Jeon Woo-chi, no qual um feiticeiro luta contra a injustiça.

Woochi terá uma conexão direta com algumas das exportações culturais mais populares do país na última década: Jung Jae-il, que está compondo a trilha sonora do jogo, foi o compositor do vencedor do Oscar de Melhor Filme, Parasita, e do fenômeno da Netflix, Round 6.

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