Nesta terça-feira (23), o pequeno Bodo/Glimt, da Noruega, tentará derrubar a gigante Inter de Milão nos playoffs da Champions League. Com vantagem de 3 a 1 conquistada na ida, o time do Círculo Polar Ártico jogará às 17h (de Brasília) no histórico estádio Giuseppe Meazza (San Siro) para conquistar um lugar nas oitavas do mais importante torneio da Europa.

A equipe vem de uma cidade de apenas 43 mil habitantes, que se destaca pelas lindas montanhas cobertas de neve e pela pesca. Ainda assim, conseguiu formar um time praticamente “100% local” que causou um verdadeiro “terremoto” na Liga dos Campeões, derrubando adversários bilionários como Manchester City (em Bodo) e Atlético de Madrid (na Espanha) durante a fase de liga.

Mas como um time com receita de cerca de 60 milhões de euros (R$ 366 milhões), um valor “minúsculo” para o “padrão Champions League”, consegue ter tanto sucesso contra gigantes?

Para descobrir os segredos da equipe aurinegra, a ESPN viajou ao extremo norte da Noruega e entrevistou o CEO do Bodo/Glimt, Frode Thomassen, que contou em detalhes como funciona a grande sensação do futebol europeu na temporada 2025/26.

Abaixo, o ESPN.com.br apresenta alguns destaques da conversa com o dirigente, que está no clube desde 2017 e comandou o incrível “conto de fadas” dos últimos 10 anos, com o time saindo a segunda divisão local (e de um orçamento anual de apenas R$ 25,5 milhões) e se transformando na maior potência do país.

Para ver tudo sobre o clube norueguês, porém, assista ao vídeo abaixo e confira a reportagem completa sobre o Bodo/Glimt.

Gramado sintético

Como o Bodo/Glimt está no Círculo Polar Ártico, o Estádio Aspmyra, aonde a equipe manda seus jogos para cerca de 8,2 mil pessoas, não recebe luz solar suficiente durante boa parte do ano. Com isso, é praticamente impossível ter um gramado natural, o que fez o time optar por usar campo sintético – algo que é autorizado pela Uefa, desde que o terreno passe nos testes de qualidade da Fifa.

“Temos que jogar em um gramado artificial. Não é possível ter um campo de grama natural aqui, porque, em algumas partes do ano, não há sol nenhum aqui”, explicou o CEO.

Questionado se o Bodo/Glimt recebe muitas reclamações de adversários que não querem jogar no sintético, como ocorre no futebol brasileiro, Thomassen defendeu seu estádio e refutou que a grama artificial tenha maior potencial de causar lesões em atletas.

Além disso, o dirigente destacou que o campo não traz vantagem esportiva à sua equipe, já que a campanha dos aurinegros na Liga dos Campeões foi melhor fora de casa do que em Bodo.

“Os gramados sintéticos modernos são muito, muito bons, até porque nós já jogamos em campos de grama natural muito ruins. (O sintético) Não é irregular nem algo assim. É bem mais limpo, mas também é rápido”, apontou.

“Acho que o problema quando se trata das lesões pode ser a mudança de superfícies. Mas não temos mais lesões do que outros clubes. Na Noruega, acho que 12 das 16 equipes jogam em grama artificial. Quando jogamos na Europa, é grama sintética e natural”, explicou.

“Acho que também tem a ver com a mentalidade que você tem, porque se você vê problemas, então você vai ter problemas. Portanto, é mais uma questão de ir lá e fazer o melhor possível com a estrutura que lhe é dada. Inclusive, na atual Champions League nós nos saímos melhor fora do que em casa”, complementou.

Apenas “produto local”

O Bodo/Glimt também se caracteriza por preferir trabalhar com “produto local’: ou seja, jogadores noruegueses.

Na escalação titular que venceu a Inter de Milão por 3 a 1, na semana passada, nove dos 11 atletas eram do país – as exceções foram o goleiro russo Haykin e o centroavante dinamarquês Hogh.

De acordo com Thomassen, a prioridade do clube é criar um ambiente de integração entre atletas e a população da cidade, de forma que eles se sintam felizes em morar em Bodo.

O CEO também salienta que sabe que sabe que os jogadores sonham em defender grandes equipes da Europa, mas afirma que o Bodo/Glimt não quer ser um “clube vendedor”, que prioriza revelar e vencer jogadores para encher os cofres.

“Não estamos nos definindo como um clube de vendas. Estamos tentando criar um tipo de produto em que jogadores e treinadores achem atraente estar aqui e gostem de estar aqui. Queremos que eles gostem de jogar no nosso estádio e de estar perto das pessoas em uma cidade pequena como a nossa. Somos um clube familiar”, definiu.

“Para nós, as prioridades são a equipe e a formação da equipe. Creio que, se você tiver a ideia comercial de sempre vender jogadores, será difícil manter as coisas estáveis. Acho que a qualidade de alguns de nossos jogadores é suficiente para que eles possam jogar nas cinco melhores ligas da Europa, e se esse é o sonho deles, seguiremos esse sonho, mas acho que para eles também é fantástico estar em um lugar como esse”, argumentou.

“E não são só nove jogadores vindos da Noruega (na escalação titular contra a Inter de Milão), mas quatro ou cinco deles foram revelados no nosso clube! E isso também é muito especial porque, se você frequentar as academias de base na Europa, elas recebem jogadores de todos os países, de diferentes países. Aqui recrutamos, em nossa base, principalmente as pessoas da nossa cidade, que é pequena, e de partes do norte da Noruega”, complementou.

Coach “de guerra”

Além do trabalho de destaque em campo, o Bodo/Glimt aposta forte nos bastidores, principalmente no cuidado da parte mental dos jogadores.

Quem desempenha o papel na equipe é Bjorn Mannsverk, ex-militar que foi piloto de caças de guerra por mais de duas décadas.

De acordo com Thomassen, o membro do estafe não tem “treinamento formal” da área de preparação mental, mas os atletas são fãs do trabalho do coach.

“Não acho que Bjorn tenha alguma formação nessa área [psicologia do esporte], mas, em 2017, havia alguns jogadores abaixo no nível individual (esportivo), e também não tínhamos muito dinheiro… Então, nosso diretor esportivo ouviu em uma festa que Bjorn Mannsverk tinha um papel de destaque entre os pilotos de caça e o convidou para vir a Bodo para trabalhar com a mentalidade dos jogadores, falando sobre como eles atuam no trabalho de pilotos de caça, os F-16″, relatou.

“Na fase inicial, o Bjorn trabalhou com apenas um ou dois jogadores, mas o efeito sobre eles foi muito, muito bom! Eles não tiveram medo nenhum quando entraram em campo. Antes, eles podiam treinar muito bem, mas no dia da partida, tinham vontade de correr para o banheiro (risos)”, brincou

“Isso [preparação mental] se transformou em uma espécie de mantra entre os jogadores. Por isso, começamos a trabalhar com mais e mais pessoas, e as dividimos em grupos. Ao longo dos anos, desenvolvemos a metodologia. Bjorn ainda está conosco, ele também começou em 2017, e agora desenvolveu uma metodologia com a qual trabalhamos no clube todo. Eu trabalho da mesma forma com a administração, trabalhamos da mesma forma com a base. E isso é sobre como construímos a cultura no clube”, acrescentou.

Destaque também para o técnico Kjetil Knutsen, que dedica praticamente 100% de seu tempo ao Bodo/Glimt.

“A casa dele [Knutsen] fica a uns 100 metros daqui (do estádio). Ele não tem carro, ele anda até aqui todos os dias. E o mercado onde ele faz as compras fica a 100 metros do outro lado”, contou o CEO.

“A família do Kjetil está morando em Bergen, que fica muito, muito longe daqui de Bodo, então o dia dele é ir de sua casa para o estádio, onde treinamos e jogamos partidas, ir ao mercado e voltar para casa”, detalhou.

“Quando eu chego de manhã ao clube, o Kjetil está lá. Quando eu vou embora, ele está lá. Mas ele é um ex-professor também Acho que ele é muito bom em criar um ambiente de aprendizado no sentido de enxergar as pessoas, mas também formar a equipe, como eles trabalham juntos”, finalizou.

Assista à reportagem completa sobre o Bodo/Glimt:

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