Confira o trailer do episódio final de ‘Stranger Things’
Último episódio de ‘Stranger Things’ estreia na noite de 31 de dezembro. Crédito: Netflix Brasil via YouTube/Divulgação
Antes de sua estreia, em 2016, Stranger Things era vista apenas como a “ficção científica estrelada por Winona Ryder”, a nova grande investida da Netflix numa época em que a plataforma começava a olhar mais para conteúdos originais. O cenário oitentista, as analogias com Dungeons & Dragons e o carisma surpreendente de um elenco infantil, no entanto, elevaram a série a um nível de sucesso mundial e solidificaram o streaming como uma potência em Hollywood.
Quase dez anos depois, Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin e Noah Schnapp, agora adultos, retornaram para uma última temporada, ao lado do numeroso elenco que se juntou à série ao longo dos anos. Com a missão de encerrar dezenas de arcos narrativos e resolver mistérios apresentados há quase uma década, o quinto ano de Stranger Things, de fato, amarrou cada ponta solta deixada pelos Irmãos Duffer na produção, mas seu preciosismo por seus personagens os levaram a decisões covardes.
Lançada em três partes ao longo das últimas semanas de 2025, a quinta temporada de Stranger Things teve um começo forte. Os quatro episódios que formaram o Volume 1 parecem uma evolução natural dos eventos do ano anterior, com Hawkins agora sitiada pelo exército e os protagonistas tentando lidar com sua nova realidade.
Primeiras horas foram emocionantes
Dinâmicas e emocionantes, as primeiras horas da temporada criaram uma base para uma conclusão épica e cinematográfica, com seu gancho final servindo como um momento de redenção para um de seus protagonistas e êxtase para os fãs.
O Volume 2, no entanto, interrompe o ótimo ritmo da história para dar lugar a tramas repetidas, que dependem demais do talento e da química de um elenco numeroso para prender a atenção do público com um roteiro que alterna entre a superficialidade e a exposição verborrágica.

Milli Bobby Brown entrega atuação robótica na 5ª temporada de ‘Stranger Things’ Foto: Netflix/Divulgação
Alguns acertos
Claro, a segunda metade de Stranger Things 5 não vem sem acertos. A amizade formada entre Max (Sadie Sink) e Holly (Nell Fisher), por exemplo, foi uma das grandes forças motora do Volume 2, enquanto o discurso de Will (Schnap) sobre sua sexualidade conclui de forma tocante um arco pessoal do personagem que existe desde o primeiro capítulo da série. O grande problema dos capítulos, na realidade, está no aparente cansaço mostrado por elenco e equipe após 10 anos trabalhando quase exclusivamente na mesma história.
Milly Bobby Brown cansada de ser Onze
Principal nome lançado por Stranger Things, Bobby Brown aparenta não ter qualquer desejo de estar em frente às câmeras como Onze. Já criticada após trabalhos medíocres em Enola Holmes 2 e The Electric State, a atriz entrega uma atuação sonolenta e robótica, incapaz de sustentar momentos emotivos e de convencer em cenas de ação, que mais uma vez se resumem à sua mão esticada e alguns trabalhos de cabo.
Por trás das câmeras, a estafa fica evidente na construção dos sets e na manutenção da continuidade das cenas. Antes de olho em cada microdetalhe dos cenários, a equipe continuísta de Stranger Things escorrega feio na quinta temporada, a ponto de mudanças repentinas em objetos de cena e referências erradas à própria série fizeram fãs teorizarem uma reviravolta que nunca vem.
Ainda que temporadas de oito episódios pareçam curtas para quem cresceu consumindo séries de mais de 20 capítulos anuais, a quantia parece exagerada nesta quinta temporada de Stranger Things, que se torna exaustiva em sua segunda metade, muito por culpa de sua duração total de quase 10 horas. Apegados demais às suas criações e receosos com a opinião pública, os Irmãos Duffer tentam dar espaço para cada personagem brilhar, mas o excesso de nomes no elenco faz com que isso nem sempre seja possível.
Elenco inchado
Enquanto Dustin (Matarazzo), Max, Steve (Joe Keery), Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) têm funções claras na trama e na construção emocional da temporada, personagens como Mike (Wolfhard) e Joyce (Ryder) são escanteados, reaparecendo em momentos soltos que parecem ter sido escritos apenas para justificar seus retornos. O inchaço do elenco fica ainda mais evidente no penúltimo episódio, quando determinadas cenas contam com mais de 15 atores em um único set, com a maioria estando lá apenas para acenar quando algum outro personagem diz algo inteligente.
Ironicamente, o zelo por personagens mais veteranos fez com que outros fossem completamente esquecidos pelo roteiro no ato final. Linda Hamilton e Amybeth McNulty, cuja inclusão no elenco principal da quinta temporada deixou os fãs animados, desaparecem repentinamente entre o clímax e o epílogo, sem que qualquer explicação seja dada.

Vilã Dra. Kay (Linda Hamilton) desaparece repentinamente da trama de ‘Stranger Things’ Foto: Netflix/Divulgação
O mesmo acontece com os demogorgons e suas variações animalescas. Antes criaturas mortíferas que destruíam tudo em seu caminho, os monstros que infestavam o Mundo Invertido não dão as caras na batalha final, que se torna anticlimática mesmo com os ótimos efeitos visuais que a constroem.
Essa desatenção excessiva faz com que a longa duração dos episódios se torne progressivamente mais frustrante. À medida que a história avança, personagens e conceitos são escanteados entre uma cena ou outra e, quando muito, retornam apenas para serem eliminados logo depois.
A salvação no vilão
Apesar do inchaço e do desenvolvimento cada vez mais lento, Stranger Things 5 ao menos entregou um desenvolvimento ainda mais aterrorizante — mas não menos compreensível — para seu principal vilão, Vecna. Dividindo-se entre o visual monstruoso do antagonista e sua antiga forma humana, Jamie Campbell Bower mostra uma atuação intensa e assustadora.
Mesmo oculto por uma maquiagem pesada, o ator britânico consegue fazer de Vecna um dos melhores vilões da cultura pop ocidental do século 21. Suas interações com o novo elenco mirim, que inclui os ótimos Jake Connelly e Nell Fisher, têm uma mistura de doçura e ameaça, com Bower criando nuances que se traduzem em uma inesperada empatia pelo antagonista, mesmo após a revelação de sua verdadeira conexão com o Devorador de Mentes.
Apostar na popularidade de Vecna após a quarta temporada foi o grande acerto dos Irmãos Duffer em seu ano final. Por mais que seu currículo tenha blockbusters como Harry Potter e Crepúsculo, Bower tem em Stranger Things sua primeira chance real de mostrar seu talento para o grande público, oportunidade que ele aproveita de forma louvável.

Mesmo sob maquiagem pesada, Jamie Campbell Bower transforma Vecna num dos melhores vilões do século Foto: Netflix/Divulgação
Em um elenco que inclui atores da Marvel e revelações da Broadway, Bower ofusca com facilidade nomes “maiores”, elevando o material que lhe foi fornecido e impedindo que a quinta temporada de Stranger Things entrasse num marasmo irreversível. Brutal, profundo e assustador, o trabalho do ator fica marcado como ponto alto deste encerramento sem inspiração escrito pelos Duffer.
O medo de desagradar
Idealizada pelos gêmeos cineastas então desconhecidos no começo dos anos 2010 e negada por diversas emissoras antes de chegar à Netflix, Stranger Things enfrentou processos, greves em Hollywood e uma pandemia durante sua produção. De 2016 para cá, os nomes envolvidos na série se tornaram famosos em diversos ramos das artes, enquanto os Duffer receberam carta branca do streaming para concluir seu maior sucesso como bem entendessem.
Apesar da passagem do tempo, os diretores ignoram o amadurecimento do público e dos personagens, como se todos ainda tivessem os mesmos 12 anos dos protagonistas que jogaram Dungeons & Dragons no porão de Mike há quase uma década.
Desde o lançamento da quarta temporada, em 2022, as redes sociais foram inundadas com teorias e especulações de mortes de grandes personagens, criadas a partir de pequenas dicas visuais e diálogos proferidos ao longo dos anos. Esses possíveis desenvolvimentos, no entanto, esbarraram no apreço quase exagerado dos Duffer por seus personagens, com os cineastas optando por opções mais óbvias e seguras para sua conclusão.

Irmãos Duffer apostam tudo no carisma de seus atores para sustentar cenas expositivas Foto: Netflix/Divulgação
Baseado desde seus primeiros segundos na nostalgia oitentista, Stranger Things passa a canibalizar os próprios momentos emblemáticos na tentativa de distrair o espectador de seus erros e problemas. O último episódio, em particular, está lotado de flashbacks desnecessários que tornam suas mais de duas horas de duração ainda mais demoradas, com equipe e elenco dando uma volta olímpica metafórica que lembra “os bons tempos”.
Plot armor e conclusão utópica
Se os trailers da quinta temporada prometiam momentos chocantes e tristes, o que se vê em tela é uma abundância do que alguns chamam de plot armor (“armadura da trama”, em tradução livre), com todos os personagens escapando da morte no último segundo repetidas vezes ao longo do episódio final.
Talvez por temer a reação raivosa de internautas, os Duffer optam por uma conclusão utópica que trai muito do que foi construído nos anos anteriores. Virando as costas para todo o mistério e perigo iminente que serviram de pano de fundo para a série, os cineastas se voltam a finais plenamente felizes e discursos emotivos para criar uma ilusão de satisfação.
Mais uma vez, os diretores apostam todas as fichas no carisma de seu elenco para sustentar seu roteiro esburacado, conquistando resultados variáveis dependendo do locutor da vez.
De fato, a estrutura narrativa de Stranger Things é conscientemente baseada na de Dungeons & Dragons, com cada campanha/temporada apresentando novos reinos, perigos e aliados. Assim como qualquer jogatina do RPG de mesa, a quinta temporada da série proporciona muitos momentos marcantes e divertidos que valem o tempo investido, mas poderia ser muito mais satisfatória se seus Mestres Duffer subestimassem menos o público e, como todo bom Dungeon Master, oferecessem surpresas maiores do que um “felizes para sempre” aos seus jogadores.
