Dos 1,7 milhão de imigrantes iranianos estimados no mundo, cerca de 600 mil residem nos Estados Unidos, segundo o Iranian Diaspora Dashboard, do Centro de Estudos do Oriente Próximo da Universidade da Califórnia. É a maior comunidade de iranianos vivendo no exterior. E mais ou menos metade deste grupo está na Califórnia, com perto de 150 mil habitantes de origem iraniana vivendo em Los Angeles. Um grupo para o qual as chances de um filme de seu país, “Foi apenas um acidente”, ganhar um Oscar já não despertam o mesmo entusiasmo alimentado em ocasiões semelhantes anteriores.

— Normalmente, os iranianos na cidade acompanham eventos desse tipo — conta Amy Malek, antropóloga sociocultural e professora associada da Universidade William & Mary. — Quando houve filmes iranianos indicados ao Oscar, a comunidade ficou eufórica. Talvez esse sentimento tenha se reduzido com o tempo.

“Foi apenas um acidente”, dirigido pelo iraniano Jafar Panahi, concorre ao Oscar de melhor filme internacional, a mesma categoria de “O agente secreto”. Panahi foi preso diversas vezes pelo regime, além de banido de fazer cinema por cinco anos. A situação do diretor reflete a repressão que os habitantes do Irã sofrem com a teocracia que domina o país. Mas desde o fim de fevereiro, o conflito entre EUA, Israel e Irã concentra a atenção e as preocupações políticas dos imigrantes.

Em uma cidade em que há Little Tokyo e Japan Town, Filipino Town, Thai Town, Koreatown, Chinatown, existe Tehrangeles (da fusão de Tehran, ou Teerã, e Los Angeles), uma área no oeste que abriga grande parte da comunidade iraniana. Ou melhor, persa. Andando pelas ruas de Tehrangeles, dá para ver restaurantes persas, mercados persas, lojas de tapetes persas, cafés persas e até pizzarias persas.

— A versão mais curta da explicação é que persa é um identificador étnico, enquanto iraniano é um identificador de nação — diferencia Malek. — Mas, durante a Crise dos Reféns (em 1979, quando 66 americanos ficaram sequestrados na Embaixada dos EUA em Teerã, por estudantes que exigiam a extradição do xá Reza Pahlevi após a Revolução Islâmica), o termo Irã foi demonizado na mídia e nos debates públicos nos EUA. Por medo, muitos começaram a se identificar como persas, associados com tapetes, gatos e caviar, em vez de iranianos, associados com Revolução Islâmica, violência e ameaças. Esse impulso persistiu para várias pessoas, e em alguns casos usar persa é uma escolha política para se afastar da República Islâmica.

Cena de ‘Foi apenas um acidente’ — Foto: Divulgação

Desde que os EUA, em conjunto com Israel, lançaram uma ação militar no país, matando o aiatolá Ali Khamenei, líder da República Islâmica, a cidade tem visto manifestações de apoio. Mas, em Tehrangeles, quase ninguém aceitou falar do assunto com a reportagem do GLOBO. Uma exceção foi Reza Bahrami, que trabalha em um mercado persa.

— Na Segunda Guerra, a Europa pediu ajuda para os EUA. Estávamos precisando de ajuda — comparou ele, que está fora do Irã há 41 anos, sendo 15 na França e 26 nas Américas, depois de ser preso, assim como boa parte de sua família.

Bahrami opina sobre o conflito, mas não sobre “Foi apenas um acidente”. Ele diz não conseguiu assisti-lo ainda.

Os persas são o maior grupo étnico dentro do Irã, antigamente conhecido como Pérsia. Até 1935 era comum que todos os habitantes se denominassem persas. Nessa data, o nome oficial do país passou a ser Irã. As primeiras construções na região datam de 4.000a.C. Os iranianos têm muito orgulho de sua cultura, especialmente da arte, arquitetura, literatura e poesia. Esse orgulho se transfere também para Los Angeles, com a Fundação Farhang promovendo a cultura do país, incluindo uma mostra anual de cinema iraniano promovida em conjunto com a UCLA.

Os iranianos de Los Angeles vieram em diferentes ondas e por diferentes razões.

— Os iranianos estão na cidade pelas mesmas razões que tantos outros grupos de imigrantes asiáticos. Eles começaram a chegar nos anos 1960 e 1970 em busca de oportunidades educacionais e profissionais. Após a Revolução Islâmica, houve uma grande onda. Mas, depois disso, ondas foram provocadas por motivos diversos, tanto por questões internas do Irã e outras por fatores de atração dos EUA — explica Kevan Harris, professor-associado de Sociologia da UCLA.

Os iranianos de Los Angeles têm origens étnicas diferentes — boa parte é armênia, por exemplo — , posições políticas, econômicas e de fé diversas. Há judeus, cristãos, bahais, zoroastristas, muçulmanos, além de muitos não-religiosos.

— Essa diversidade é talvez única na diáspora e apresenta muitos desafios para a construção de unidade, especialmente em tempos como os de hoje — disse Malek.

A característica ficou evidente em um episódio em janeiro, durante um protesto contra a repressão no Irã. Calor Ma Da Nescht avançou com um caminhão sobre as pessoas. No veículo, havia diversas mensagens políticas, incluindo: “Nada de xá”, referindo-se a Reza Pahlevi, filho do xá Mohammad Reza Pahlevi, monarca derrubado pela Revolução Iraniana de 1979. Reza está exilado nos EUA. Boa parte do comércio em Tehrangeles colou retratos de Pahlevi em suas portas de vidro e paredes. A grande maioria também ostenta uma bandeira iraniana pré-Revolução Islâmica.

Um país cinematográfico

Projeção mundial. Embora filmes iranianos tenham alcançado mais reconhecimento internacional no início dos anos 1990, quando obras marcantes passaram a circular em festivais e premiações, a gênese da fase mais fértil na cinematografia do país remonta a décadas anteriores. Em 1969, o diretor Dariush Mehrjui — assassinado em 2023, aos 83 anos — lançou a pedra fundamental de um movimento impulsionado por intelectuais que se opunham ao cinema meramente escapista e defendiam produções voltadas à reflexão social.

Cena de 'Gosto de cereja', de Abbas Kiarostami — Foto: Divulgação
Cena de ‘Gosto de cereja’, de Abbas Kiarostami — Foto: Divulgação

Pasto social. Drama sobre um agricultor às voltas com a perda de um animal, o filme de Dariush Mehrjui “A vaca” (1968) é considerado a primeira obra do chamado “novo cinema iraniano”. Censurado pelo governo — que, aliás, o financiou —, o longa se tornou referência estética e temática para gerações. Seu olhar voltado para personagens comuns, conflitos morais e tensões sociais ajudou a moldar uma tradição que, décadas depois, foi reforçada por diretores como Abbas Kiarostami, Asghar Farhadi Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf, Majid Majidi, Samira Makhmalbaf e Mohammad Rasoulof.

Totalmente premiados. A consagração do cinema local além das fronteiras veio através de obras como “Gosto de cereja” (1997), de Kiarostami. O filme — sobre um homem que planeja um suicídio e segue à procura de alguém disposto a enterrá-lo — conquistou a Palma de Ouro de Cannes. Desde então, ocupa o posto de clássico recente da sétima arte. Detalhe: o diretor argentino Lisandro Alonso prepara um remake com Wagner Moura no papel principal.

Em ascensão. A despeito das severas restrições governamentais — com ameaças e perseguições a profissionais —, o Irã segue como um dos polos cinematográficos mais inventivos no mundo, com tramas minimalistas de forte dimensão humanista. Exemplos de títulos mais recentes são “A semente do fruto sagrado” (2024), “Um herói” (2021), “Não há mal algum” (2020) e “Táxi Teerã” (2015). O país tem três estatuetas do Oscar: “A separação” (2011) e “O apartamento” (2016), ambos de Asghar Farhadi, na categoria de melhor filme internacional; e com “In the shadow of the Cypress” (2023), de Hossein Molayemi e Shirin Sohani, na categoria de melhor curta-metragem de animação. (Gustavo Cunha)

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