Vicente Serejo
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Uma manhã dessas, ainda cedo, precisei ir à livraria do Campus da UFRN. Quando já descia a pequena ladeira que leva direto ao estacionamento do Centro de Convivência, vi, mais na frente, uma iguana que atravessava o acesso. Tive inveja. Não era das maiores, devo reconhecer, mas andava com a altivez e a elegância dos que sabem que são assim. A crista eriçada sobre as costas, no passo sem pressa e sem demora, como se dos olhos vivos fugissem um silêncio que parecia celebrar a vida.
Ora, parei o carro e fiquei olhando sua caminhada, sem medo e sem comiseração. Não tinha o ar abusado de alguns doutores e doutoras que às vezes encontro por lá, os olhos lançando o tédio sobre o dorso dos livros. Mas, se a confissão é justa e, portanto, devida, não deixei de admirar o ar superior. Não precisa de títulos. Não paga taxas e emolumentos. Sequer deve às manifestações de apreço ao senhor diretor, como denuncia o poeta Manuel Bandeira, e este sabia que a vida é comoção.
Sua travessia foi lenta. Mero expectador de sua elegância sincera e sem ostentação, tive o tempo todo para vê-la passar, sem olhos estranhos que por acaso estivessem flagrando sua caminhada. Eram horas de uma manhã ainda sonolenta, de um sol macio que lambia as árvores como se chegasse para reinventar as sombras. Um habitante sutil daquele mundo calado, até que os primeiros passos quebrassem os últimos silêncios da manhã que se erguia, aos poucos, sem querer saber de ninguém.
A inveja não vive entre meus muitos defeitos. Seria inútil, se já são tantos e tão perdidamente ferozes. Por conseguinte, seria debalde, como gostava de dizer D. Alice, a avó de Rejane. Invejar fere a alma. Só invejo os livres, os libertos dos organogramas e fluxogramas, das ditaduras dos currículos Lattes, das reuniões pedagógicas, e tudo pelo defeito medonho de desconfiar do saber que dorme nas fichas amareladas, nas transparências muito bem alinhados, a letra redonda sobre a palidez do branco.
Tenho inveja, isto sim, dos que sabem querer bem, se querer bem é quase amar, se amar não tem, necessariamente, o destino inevitável do desejo carnal. O querer bem que não é pecado, como ensina a modinha. Tenho inveja – como não? – dos que não entregam os olhos às coisas tolas e úteis com todo aquele ismo que significa vantagem. Inveja – e como invejo! – dos que sabem vencer os ódios escondidos nas dobras da alma, os livres dos olhos, dos gestos, do silêncio amargo do ranço.
Admirei – pra que negar? – aquela bela iguana que cedo vi atravessar o caminho na ladeirinha de acesso ao Centro de Convivência. Tinha tudo que falta em alguns humanos e parecia feliz com sua leveza e elegância, sem o falso bem-querer que se revela nos gestos negados. Seu pelo é rugoso, dirão. É que assim protege a vida. Vi, nos seus olhos miúdos e vivos, que o poeta Vinícius de Moraes tem razão, quando adverte, grave, como se falasse pela boca do povo: a vida não é de brincadeira não.
PALCO
LUTA – Os mais experientes já admitem que não será fácil a Alysson Bezerra sustentar todo seu favoritismo que as pesquisas indicaram até agora. A campanha já vai começar dura e imprevisível.
MAS – Os mesmos observadores também admitem: as duas chapas bolsonaristas vão precisar de habilidade acima dos resultados. Para ser possível a união de forças na hipótese de um segundo turno.
EXCESSO – A poda da Prefeitura, na Av. Brigadeiro Gomes, lugar desta caverna de livros velhos, deve ter sido com uma motosserra que antes cortava até as sombras em torno do bunker de Hitler.
FLAGRA -Nas redes sociais, numa fala anônima, um verdadeiro primor do flagrante que retrata, e com toda precisão, este Brasil de heróis e vilões: “A ignorância só interessa a quem ganha com ela”.
HUMOR – De Vinícius de Morais numa entrevista à revista Status, em março de 1978, à jornalista Marta Santamaria, com todo o humor: “Acho qualquer prisão horrível, inclusive a prisão de ventre”.
BRILHO – Simplesmente primoroso o artigo do padre e doutor João Medeiros Filho, na edição de ontem desta TN: ‘Alimentação, cultura e sacralidade’. Brilho que Deus deixou na cabeça de poucos.
POESIA – Do poeta Carlos Drummond de Andrade, vendo as flores da primavera em toda parte, no longe e no perto dos olhos tão míopes: “Primavera, fiz um discurso? / Primavera, tu me perdoas?”.
ÓPIO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois de uma ‘Cabeça de Galo’ para refazer a coragem de viver: “O poder é o ópio que ao mesmo tempo revela os fracos e os fortes”.
CAMARIM
PIONEIRO – “Excelente lembrar tudo isto, mas completaria com a alfabetização em Angicos com a inovadora orientação de Paulo Freire, que se estendeu, em seguida a Mossoró e as Quintas, em Natal. Para isto, não temeu aliar-se com John Kennedy, ao contrário de Carlos Lacerda e Magalhães Pinto”.
PIONEIRISMOS – A observação é do professor Marcos Guerra, quando leu, nesta coluna, sobre os pioneirismos que fizeram de Aluízio Alves o grande líder como governador do Rio Grande do Norte no papel histórico naquela primeira metade dos anos sessenta. O cronista, ainda comovido, agradece.
“TÉ MANHÔ – Ao leitor, a quem pareceu ter sido erro ou lapso de revisão, aquele “Té Manhã” na citação da canção de Luiz Vieira: é dele, da letra original do próprio autor. É uma contração da oralidade popular, digamos, de “até amanhã”, charme ou, quem sabe, no uso das licenças poéticas.
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