A superexposição de crianças no mundo digital reacende debates morais e éticos necessários para a sociedade. Muitos pais ou parentes objetificam seus menores de idade, transformando-os em produtos comerciais a serviços de likes, fama, engajamento e dinheiro. Partindo desse ponto, Salve Rosa, produção nacional disponível no catálogo da Netflix, expõe essa problemática com um verniz mais estilizado, focando em uma linha mais psicológica do que dramática.

Mesmo sendo um tema delicado, é importante que obras cinematográficas abordem essas questões em um mundo dominado pela internet. A aparência é uma ferramenta vendável. Nesse ponto, o filme ancora toda sua parte visual e estética, a fotografia é limpa e colorida, construindo uma atmosfera falsa e artificial. É um espaço feito para mascarar a natureza destrutiva. O cenário do quarto da jovem Rosa (Klara Castanho) compacta em um lugar a realidade lúdica de seus vídeos e, na parte da sua cama, um cinza depressivo e opressor, retratando a sua verdadeira realidade.

A diretora Susanna Lira entende essa proposta, trazendo planos fechados e close ups nos rostos dos personagens para causar intimidação ou aproximação, especialmente nos rostos das protagonistas. Ela também utiliza muitos planos detalhes nos cenários como forma de carregar um clima aparentemente perfeito e exuberante. Lira abandona um drama mais cru em prol de um suspense psicológico, visto as cenas de desconforto que constrói. Entretanto, quando o drama aparece, Salve Rosa parece mais encenado do que genuíno, não atingindo o peso emocional aguardado.

A estilização exagerada corta a carga realista do projeto e o suspense proposto pela diretora se torna mecanizado. As cenas, em muitos casos, parecem fora do tom, como os diálogos de Rosa e sua amiga e as cenas de flerte de Dora com Beto. Quando o filme tem que mostrar drama, não soa muito verdadeiro, mesmo com a boa atuação das atrizes principais.

A urgência da trama fica na intenção, pois a execução soa superficial. O roteiro, mesmo com temas tão poderosos, perde tempo com subtramas desnecessárias com personagens coadjuvantes, que só servem para dar volume ao filme – se retirar toda a história relativa a infidelidade não faria nenhuma diferença. 

Entretanto Klara Castanho e Karine Teles seguram a força do filme com suas atuações. Klara cria uma Rosa perdida e melancólica, mas também transmite doçura e simpatia. Ela consegue mostrar o desconforto da personagem e seu medo pulsante. Por outro lado, Karine brilha ao entregar uma Dora dissimulada, abusiva e manipuladora, disfarçada de uma mãe amorosa. A sua frieza é calculada, ela vê a filha como uma mercadoria, seu tom de voz calmo e gentil serve para intimidar, amedrontar e enganar. Infelizmente, a personagem não é bem desenvolvida do ponto de vista psicológico pelo roteiro. Suas motivações são nebulosas e gasta-se tempo trazendo uma personalidade clichê para ela, resumindo-a a uma megera.

Apesar disso, o roteiro chama a atenção para temas importantes para o momento atual como relações parentais abusivas em que a mãe de Rosa controla cada passo da sua vida, a exploração de menores no âmbito digital, saúde mental do jovem, a hipocrisia das redes sociais e a superexposição de jovens na internet. Todos esses pontos estão inseridos no roteiro e alertam reflexões importantes, mesmo que Salve Rosa não aprofunde essas discussões como o passado de Rosa com sua mãe e o arco envolvendo a amiga tentando atingir o sucesso de Rosa. O único tema bem aprofundado é a saúde mental da personagem de Klara Castanho e os impactos danosos disso em sua vida, suas relações pessoais na escola e seu sofrimento interno.

O final, contudo consegue resgatar algum pingo de urgência quando o roteiro opta por uma conclusão mais indigesta e realista, fugindo do clássico final feliz. A mensagem final é mostrar uma realidade repleta de Rosas e Doras espalhadas por aí. É compreender a dimensão do problema e alertar a população que o mundo da internet esconde um lado muito cruel. Salve Rosa dá luz a isso, da importância de conhecer e entender a escravidão digital e que ela necessita de uma maior atenção.

Salve Rosa tem uma temática importante em suas mãos, mas não consegue atingir seu ápice dramático por causa de uma condução artificial excessiva. Mesmo assim, Klara Castanho e Karine Teles salvam um pouco a experiência e seu final promove uma boa reflexão sobre o tema proposto.

  • Ator, dublador e formado em Produção Multimídia na faculdade Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí, SP. Também produtor de conteúdo do canal Cine Multiverso no YouTube. Cinema é a minha maior paixão. O cinema é uma arte de perspectiva.



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