— O governo cubano está conversando conosco e eles têm problemas muito sérios, como vocês sabem. Eles não têm dinheiro, não têm nada agora, mas estão conversando conosco e talvez vejamos uma tomada de poder amigável em Cuba — disse o presidente dos EUA a repórteres ao sair da Casa Branca para uma viagem ao Texas. — Sabe, temos pessoas morando aqui que querem voltar para Cuba.

No início desta semana, o governo americano anunciou planos para permitir o envio de combustível de empresas energéticas americanas para empresas privadas cubanas. O plano continua a tomar forma, embora as tensões estejam elevadas após um confronto fatal na quarta-feira entre autoridades cubanas e um grupo de dez cubanos residentes nos EUA a bordo de uma lancha registrada na Flórida, ao largo da costa da ilha.

A estratégia de Trump inclui tranquilizar as empresas de energia, garantindo-lhes que podem vender petróleo e combustível para pequenas e médias empresas privadas cubanas, disseram à Bloomberg fontes familiarizadas com os planos da Casa Branca, que pediram para não serem identificadas.

Outra parte do plano é autorizar a revenda de petróleo venezuelano para Cuba, com o Departamento do Tesouro afirmando que seu Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros “implementaria uma política de licenciamento favorável” para casos específicos. Vendas que beneficiem o governo cubano continuam proibidas.

Questionado sobre a estratégia, um dos funcionários da Casa Branca disse:

— Cuba é uma nação em declínio, cujos governantes sofreram um grande revés com a perda do apoio da Venezuela e com o México interrompendo o fornecimento de petróleo.

Os Estados Unidos mantêm um embargo comercial abrangente contra Cuba desde 1962. A Assembleia Geral das Nações Unidas tem instado Washington a abandonar essas medidas drásticas há décadas, citando o impacto negativo em tudo, desde a disponibilidade de bens básicos e o combate à pobreza até a saúde e a economia.

Diante de uma grave crise energética, Cuba recentemente começou a permitir que empresas privadas importem combustível sob certas condições. Embora os carregamentos ainda sejam pequenos, o objetivo é aumentá-los para que as empresas americanas se tornem a principal fonte de petróleo para o setor privado, substituindo décadas de dependência dos carregamentos de aliados de esquerda ligados ao governo em Havana, disseram as fontes.

A nova estratégia “sinaliza que o governo Trump está reconhecendo o setor privado cubano como um parceiro legítimo no terreno”, disse Ricardo Herrero, diretor executivo do Cuba Study Group, um think tank com sede em Washington.

— Não é algo que vá substituir toda a indústria petrolífera, mas vai levar combustível para onde é mais necessário.

O incidente de quarta-feira, no entanto, destaca a volatilidade da situação em ambos os lados. A Guarda Costeira cubana matou a tiros quatro dos dez passageiros a bordo da embarcação, alegando que o grupo estava fortemente armado e planejava iniciar uma insurreição na ilha.

O secretário de Estado Marco Rubio, em declarações ponderadas durante uma cúpula de líderes caribenhos em São Cristóvão e Névis, anunciou que os EUA conduziriam sua própria investigação antes de tirar quaisquer conclusões. Por ora, é improvável que o caso atrapalhe o plano de Washington, disse uma das pessoas familiarizadas com o assunto.

Rubio, filho de imigrantes cubanos, declarou à Bloomberg News neste mês que Havana precisará oferecer mais liberdades econômicas e políticas para aliviar a pressão dos EUA.

O plano de Trump dá sequência a uma Estratégia de Segurança Nacional divulgada em dezembro, que afirma a preeminência dos EUA no Hemisfério Ocidental, particularmente sobre potências externas como a Rússia e a China — um corolário da Doutrina Monroe do século XIX. Embora Moscou apoie Cuba há muito tempo, a China intensificou suas atividades na ilha nos últimos anos.

Os primeiros carregamentos para empresas privadas foram de diesel, usado para abastecer caminhões e geradores na ilha, que há anos sofre com apagões frequentes. A precária rede elétrica de Cuba é alimentada por usinas termoelétricas antigas que precisam de cerca de 100 mil barris de petróleo por dia para atender à demanda. A ilha produz apenas dois quintos desse volume, o que a torna dependente de suprimentos estrangeiros.

Após Trump ameaçar impor tarifas a qualquer nação que enviasse petróleo para Cuba, a ilha ficou mais de um mês sem uma entrega significativa pela primeira vez em mais de uma década. A demanda por combustível está agora altíssima, segundo um consultor de negócios baseado em Havana, que afirmou que o processo para a importação de cargas privadas é envolto em incertezas, visto que as importações de combustível são há muito tempo um monopólio do governo.

A instabilidade no fornecimento de energia elétrica em Cuba obrigou muitas pequenas empresas a investir em painéis solares e sistemas de baterias de reserva. No entanto, a escassez de combustível está prejudicando gravemente empresas que precisam entregar mercadorias ou operar máquinas pesadas. Os cubanos comuns, que antes cozinhavam com gás, agora preparam a comida em fogueiras.

O governo Trump continua interessado em substituir o presidente cubano Miguel Díaz-Canel e tem conversado com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do irmão de Fidel Castro, Raúl Castro, disse uma fonte da Casa Branca. Segundo a fonte, a administração americana considera que Díaz-Canel fracassou na economia e é incapaz de promover as mudanças políticas e econômicas necessárias.

Questionado sobre as negociações, o funcionário da Casa Branca disse:

— Como o presidente afirmou, estamos conversando com Cuba, cujos líderes devem chegar a um acordo.

O governo cubano ainda não reconheceu as negociações, e não está claro o quão receptivos os cubano-americanos do sul da Flórida, que apoiaram Trump, estarão à ideia de o governo negociar com um membro da família Castro. Mas se a reação da comunidade venezuelana-americana à saída dos EUA do número dois de Maduro do comando em Caracas servir de indicador, Rubio e o presidente podem já estar em terreno seguro.

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