O carnaval já começou nos negócios. Com consumidores cada vez mais dispostos a pagar por experiências, comportamento que se consolidou após a pandemia, a festa tem tudo para ser a melhor para a economia em anos.
Setores de serviços, eventos e turismo já sentem os efeitos enquanto marcas reforçam ações de marketing além dos quatro dias de folia (este ano, de 14 a 17 de fevereiro) com novo viés: ativar patrocínios de forma inovadora e surpreender o consumidor proporcionando o que ele mais procura: momentos memoráveis.
No radar está a expectativa de um recorde de R$ 32,8 bilhões movimentados no carnaval, turbinado pelo turismo em alta, segundo a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA). A estimativa é 4% acima da de 2025, consolidando a festa popular como responsável por 15% de toda a movimentação financeira do turismo e dos serviços na alta temporada do verão.
Rio, Bahia, Minas, Pernambuco e São Paulo concentram a maior parte dos foliões. Exibir uma marca na festa desses estados pode alcançar 36 milhões de foliões, calcula a FBHA. Mas, para atrair a atenção, é preciso ir além do outdoor.
Estreante no carnaval, o Airbnb patrocina neste ano o circuito de blocos de rua do Rio, onde registrou alta de 50% na busca por acomodações para o período. A plataforma de hospedagem, que tem agregado experiências ao seu app, quer se aproximar não só dos cariocas, mas dos viajantes que passarão pela cidade, diz Fiamma Zarife, diretora-geral do Airbnb na América do Sul.
Uma das ações é uma feijoada na sede do Cordão da Bola Preta que tem a atriz Paolla Oliveira, rainha do bloco que é um dos mais tradicionais do Rio, como anfitriã de um grupo de usuários do Airbnb.
— O carnaval é uma das épocas que mais movimentam turistas no Brasil. Já observamos que está atraindo mais foliões de todo o país — diz Zarife.
Plataforma de relacionamento e posicionamento
Há patrocínios em vários nichos. Em Belo Horizonte, o Grupo Zelo, que administra planos funerários e cemitérios, patrocina o Bloco Fúnebre, que abre o carnaval na sexta-feira 13 com fantasias macabras para subverter o tema da morte com alegria, num “luto invertido”.
A Granado aposta na fofura unindo-se a um bloco infantil no Rio. A Seara resolveu apresentar uma nova linha de linguiças e salsichas defumadas em estandes em eventos momescos no Rio e no Recife. A PepsiCo pretende matar a fome dos foliões distribuindo biscoitos Cheetos nas ruas de Recife, Olinda e Salvador.
— As marcas hoje entram de forma mais estratégica. Passaram a entender o carnaval como uma plataforma real de negócios, relacionamento e posicionamento — diz Alessandra Pirotelli, CEO do Alma Rio, camarote de luxo da Sapucaí que atrai muitas marcas. — O carnaval estimula toda a cadeia, da hotelaria à gastronomia, da música à tecnologia.
A C&A planeja badalar uma coleção especial de carnaval em eventos na Praia do Leme, no Rio, mas o objetivo da rede de vestuário é mesmo reforçar a relação com o consumidor para o ano todo, diz Cecília Preto Alexandre, executiva de marketing da empresa:
— O carnaval ativa nossa comunidade, impulsiona tráfego e cria picos relevantes de engajamento físico e digital.
80 festas patrocinadas e 462 blocos
O Grupo Vibra promove nada menos que 80 festas patrocinadas em um calendário carnavalesco estendido no Rio e em BH. A produtora espera faturar R$ 40 milhões na folia de 2026, diz Juliana Schultz, sócia da empresa:
— Neste carnaval, tivemos um crescimento de 50% nos eventos. O carnaval é um termômetro importante para o mercado de entretenimento.
Duda Magalhães, presidente da Dream Factory, que organiza o circuito de rua do Rio, também vê um aquecimento, com alta de 8% no número de blocos, para 462, e a captação de R$ 40 milhões em patrocínios:
— O carnaval de rua vem se tornando mais organizado ano após ano, dando maior previsibilidade para as marcas.
A folia nas ruas de Salvador também soma R$ 40 milhões em patrocínios, 30% mais que em 2025, segundo a Saltur, que organiza a festa na cidade. A Raia Drogasil apoia a abertura simbólica da festa baiana com show do cantor Xanddy. No Rio, a rede vai instalar chuveirões em alguns circuitos de blocos e ainda distribuir pochetes nas 200 farmácias que mantêm nas capitais baiana e fluminense.
Veterana dos carnavais, a Ambev patrocina circuitos de rua em Rio, Salvador e São Paulo. Na capital paulista, a marca Skol traz o DJ escocês Calvin Harris para tocar em um bloco na Consolação, numa mistura de influências que casa com o seu plano de lançar no carnaval uma versão da Skol Beats com frutas verdes. A bebida tem como garota-propaganda a cantora Anitta, que já movimenta o Rio com ensaios de seu bloco.
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A Brahma mantém sua associação com a Sapucaí, repetindo a circulação de latas da cerveja decoradas com motivos de cada uma das escolas cariocas, mas a intenção da cervejaria é se aproximar mais das ruas.
— O calendário está cada vez mais importante, com eventos (em torno da folia) ganhando força. Renovamos o carnaval em Salvador por mais cinco anos e, neste ano, lançamos o edital de R$ 4 milhões para ajudar 250 blocos no Rio e em São Paulo. A Sapucaí é o grande palco, mas neste ano buscamos fortalecer ainda mais o carnaval de rua — diz Leandro Mendonça, diretor de Eventos e Experiências da Ambev
99Foods reforça estratégia
A 99, que desafia a liderança do iFood com seu aplicativo de delivery, o 99Food, aposta numa das garotas-propaganda mais concorridas do carnaval: Ivete Sangalo. A plataforma viabiliza, pela primeira vez, um trio elétrico puxado pela cantora no Rio. O bloco foi batizado de “Será que pede?”, em alusão à campanha em que ela promove os serviços do app.
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— Também teremos Sabrina Sato como nova embaixadora no carnaval. Vamos colocar a marca no contexto das ativações. Nosso investimento aumentou significativamente neste ano — diz Ana Verroni, líder de marketing e operações da 99, sem detalhar cifras.
Câmbio ajuda a atrair estrangeiros
Sabrina, experiente rainha de bateria da Sapucaí, agora também é empresária da festa. Virou sócia do camarote N1, que deve reunir 13 mil pessoas em quatro dias de desfiles no Rio. A estrela trouxe novos patrocinadores para o espaço, como a Havaianas. Os camarotes com vendas de ingressos são outro negócio em alta, no Rio e em São Paulo. Juliana Ferraz, sócia da N1, destaca a maior procura de estrangeiros, cujo percentual no camarote deve subir de 18% para 25% este ano:
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— O mundo está olhando para o Brasil. O carnaval é um dos maiores ativos, o momento de criar conexão.
Alexandre Sampaio, presidente da FBHA e diretor do Conselho de Turismo da Confederação Nacional do Comércio (CNC), também destaca o impacto do fluxo crescente de turistas estrangeiros na economia do carnaval.
Segundo levantamento da Embratur, a venda de passagens aéreas internacionais para o Brasil entre 7 e 15 de fevereiro deste ano foi 23% maior que no pré-carnaval do ano passado. A maioria vem de Argentina, Chile, EUA e França. O dólar ainda acima dos R$ 5 tem um efeito duplo, observa Sampaio:
— O câmbio ajuda a atrair estrangeiros e leva os brasileiros a buscarem opções internas em vez do exterior. Temos visto o brasileiro muito planejado, comprando pacotes com antecedência. Será um ano de recordes, com um calendário antecipado de eventos.
Pré-carnaval mais organizado
Os eventos do pré-carnaval estão mais profissionalizados. No Rio, por exemplo, a Praia de Copacabana conta com o Carnaval Fan Fest, criado e organizado pela produtora de eventos SRCom em parceria com a Liesa, a liga das escolas de samba.
O espaço inédito, inspirado em eventos desse tipo em Copas do Mundo, começou na última terça com um encontro de baterias patrocinado pela Superbet, que virou recorde no Guinness, e show de Belo e Neguinho da Beija-Flor. Vai transmitir ensaios e desfiles para quem ficar fora do sambódromo.
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— O comportamento do público está mudando. É preciso conectar a tradição cultural com o consumidor — diz Diógenes Queiroz, que dirige o camarote Allegria e planeja eventos de bem-estar paralelos na capital fluminense. — O Rio está em voga, e as marcas querem se apropriar disso.
Para Tati Oliva, diretora-geral da empresa de marketing Cross Networking, essa movimentação vai se repetir na Copa do Mundo. As marcas precisam se manter envolvidas com eventos durante o ano todo se quiserem criar uma conexão mais duradoura, ela diz:
— Não adianta só fazer uma ação ou campanha. É preciso recorrência. Por isso há marcas de moda, bebidas, alimentos e acessórios falando com seu público nesses momentos.
O mês do Carnaval chega a elevar em 60% o consumo de cervejas no país, avalia Paulo Petroni, presidente da CervBrasil, associação que reúne as grandes marcas. A exposição na Folia é um claro movimento de disputa pelo apetite do freguês, que aumenta:
— No mês do carnaval, o consumo, que fica abaixo de 1 bilhão de litros nos outros meses, aumenta 50%, 60%, superando 1,5 bilhão de litros. Como o consumo vem, as marcas expõem de forma forte, através de patrocínios e exposição, influenciando o consumidor a adquirir aquela marca mais próxima do evento — diz ele, afirmando que a disputa também aparece nas gôndolas, com forte divulgação nas prateleiras e estratégia de preços.
Na previsão de Petroni, o consumo deve crescer de 8% a 10% na comparação com o Carnaval de 2025.
Além das bebidas alcoólicas, água não pode faltar. A Minalba fará ativações em Salvador, São Paulo e Rio, enquanto a Indaiá, do mesmo grupo, vai expor a marca no Galo da Madrugada.
A Mondelez escolheu as marcas Trident e Club Social para representar o grupo em ativações nas capitais baiana e pernambucana, incluindo distribuição das gomas e do biscoito para os foliões.
A Neutrogena vai distribuir protetor solar grátis, através de mochileiros, no tradicional bloco carioca Amigos da Onça.
Fabricando carros elétricos no Brasil, a chinesa BYD terá transfers gratuitos com seus modelos para quem for curtir os camarotes de Salvador e do Rio.
