‘Hamnet’ evoca a tragédia pessoal que teria inspirado uma das mais famosas peças de Shakespeare

Maior colecionador de Shakespeare do Brasil conta por que ler a obra do bardo inglês

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O advogado José Roberto de Castro Neves, autor de 'Shakespeare Ontem, Hoje e Amanhã e Amanhã, e Amanhã', fala ainda sobre o que ele aprendeu em suas leituras.

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Agnes, filha de uma bruxa da floresta, e Will, um tutor de latim pobretão, se apaixonam em encontros furtivos nas matas de uma comunidade inglesa do século 16. Os dois formam uma família amorosa com três crianças, até que a chegada de uma doença interrompe a vida idílica do jovem casal.

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A premissa dá fôlego para uma grande tragédia, que chega aos cinemas como um dos filmes mais badalados na temporada de prêmios de Hollywood. Hamnet, indicado a seis Globos de Ouro (veja aqui a lista completa de indicados), é baseado no livro best-seller de Maggie O’Farrell, que assina o roteiro com a diretora Chloé Zhao.

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Will, na verdade, é William Shakespeare, e a história é o drama pessoal que teria inspirado uma de suas peças mais famosas, Hamlet. Mas isso é detalhe.

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“Não estava interessada na parte histórica”, disse a atriz Jessie Buckley, que vive a protagonista Agnes, uma jovem mística ligada à natureza e a ervas medicinais. “Simplesmente me foquei em conhecer o coração pulsante dessa mulher, quem ela era na minha imaginação e na imaginação de Maggie e Chloé.”

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O livro premiado de Maggie O’Farrell, lançado em 2020, é um romance histórico que imagina a vida do bardo inglês e a possibilidade de Hamlet ter sido escrito após a morte de uma de suas crianças aos 11 anos. Hamnet e Hamlet eram variações do mesmo nome, segundo registros da época.

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“Ninguém sabe nada de verdade sobre esses personagens. Não sabemos o que Shakespeare colocava na sua torrada, o que escreveu de fato, e não importa”, continuou Buckley, indicada ao Oscar por A Filha Perdida (2021). “O que importa é o efeito que suas histórias produzem. Ele é o contador de histórias por excelência, e sua presença se faz sentir de forma palpável ao longo de todo esse tempo.”

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Por boa parte do filme, Shakespeare é apenas Will. Vivido por Paul Mescal, ele é um escritor angustiado que sofre com um pai abusivo. Seu nome completo só aparece perto do final, quando Agnes e seu irmão vão procurá-lo em Londres, onde ele passa a maior parte do tempo, atrás do sucesso como dramaturgo.

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Mas há referências óbvias ao longo da trama, como quando ele escreve à luz de velas sobre uma tal de Julieta, bem no começo do filme, quando tudo ainda é paixão. Sua família é contra o casamento com Agnes, já grávida, por ela ser filha de uma feiticeira.

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‘Queríamos um Shakespeare sexy’

A diretora Chloé Zhao também não se apegou a verdades históricas. Confiou na pesquisa da parceira de roteiro e na experiência de seus atores com o material de Shakespeare. Numa conversa com jornalistas em Los Angeles, ela brincou que nem o penteado de Mescal respeitou a versão historicamente correta.

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“Quando vi a versão do cabelo da época, pensei: ‘De jeito nenhum’. Não dava”, disse Zhao com uma risada. “Queríamos um Shakespeare sexy.”

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Buckley contou que se preparava para as filmagens todas as noites escrevendo loucamente, com uma “escrita febril, quase delirante”. “Nem sabia o que estava escrevendo, mas para adentrar aquele mundo, queria acessar meu inconsciente e ter uma conexão com o meu corpo”, disse a atriz.

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Agnes é uma mulher de poucas palavras, e o silêncio foi algo que a atriz abraçou desde o início. “O silêncio nunca é total. A Agnes vibrava milhares de palavras sem dizer nada”, disse Buckley. “Às vezes eu tentava e pedia para Chloé: ‘Acho que não precisamos dessa fala, e dessa fala também não, e daquela…’”.

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Eis a questão

Mescal também fazia pedidos do tipo, segundo a diretora. Mas seu monólogo poético “Ser ou não ser” permanece intacto e expande o sentido de escolha entre vida ou morte.

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“Também podemos olhar o ‘ser’ como o oposto de fazer. Não ser é fazer outra coisa”, disse Zhao. “Will sofre porque quer ficar em casa com a família e quer também ir embora trabalhar. É o clássico yin e yang, civilização e natureza, masculino e feminino, fazer e ser.”

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“A vida é caminhar entre essas tensões. Se soubermos vivê-las, conheceremos os dois, a maior dor e a maior alegria. Não dá para ter um sem o outro. Para mim, isso é ser ou não ser.”

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Zhao, ganhadora do Oscar de direção e filme do ano por Nomadland (2020), cria uma atmosfera mágica e bucólica pelos olhos de Agnes. O filme começa com a personagem tirando uma soneca no meio das raízes das árvores após caçar com seu falcão, um animal que volta a aparecer nos sonhos da criança doente.

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É um misticismo do qual a diretora parece compartilhar. “Acredito que os pássaros falam a língua dos profetas”, disse Zhao, que usava um casaquinho com dois pássaros pretos bordados. “Sou muito sensível. Quando as coisas ficam complicadas e preciso decidir algo na hora, eu paro e tento escutar os pássaros. Se escuto, digo sim. Se não escuto nada, é não.”

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Chloé Zhao depois do Oscar de ‘Nomadland’ e o fracasso de ‘Eternos’

Hamnet chegou a suas mãos após um convite da produtora de Steven Spielberg. Zhao havia acabado de lançar o blockbuster da Marvel Eternos (2021), um filme que decepcionou nas bilheterias e foi massacrado nas críticas.

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Antes de Nomadland, sobre uma mulher em luto que passa a viver no carro e a viajar pelo oeste dos EUA, ela dirigiu Songs My Brothers Taught Me (2015), sobre a vida de dois irmãos da comunidade Lakota Sioux, e The Rider (2017), um faroeste moderno sobre um peão que precisa se reinventar após sofrer um acidente.

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“As histórias me escolhem”, disse Zhao a respeito da conexão com seus filmes anteriores. “E acho que Hamnet me escolheu porque eu conheço a perda. Meus filmes anteriores são sobre isso, a perda de identidade, da fé, da casa, de propósito. Eu passei por maus bocados”, disse Zhao, sem dar detalhes da vida pessoal.

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A diretora nasceu em Pequim e estudou na Inglaterra quando adolescente antes de se mudar para Califórnia, Massachusetts e Nova York, onde estudou cinema e teve aulas com Spike Lee. Recentemente, separou-se de seu parceiro de longa data e colaborador, o diretor de fotografia Joshua James Richards.

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“Seja lá onde for, numa reserva indígena, na natureza, com cavalos ou na estrada, uma alquimia acontece nas comunidades. E é através dessa alquimia que os personagens se tornam quem realmente são, através da dor e da perda”, disse Zhao sobre seus filmes.

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Em Hamnet, essa química acontece quando somos levados para dentro do Globe Theatre, um teatro ao ar livre em Londres, construído em 1599, onde a companhia de Shakespeare encenava suas peças.

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Agnes está atordoada e confusa na plateia, sem entender a encenação de palavras pomposas. É um sentimento que pode acometer os espectadores do filme não iniciados em Hamlet, sobre um príncipe que precisa vingar a morte do pai, ex-rei da Dinamarca, que surge como um fantasma.

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Com um simples gesto de Agnes, o teatro atinge uma epifania coletiva, uma emoção que parece reverberar pelo cinema, quando é possível ouvir as lágrimas transbordando.

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“É o alívio de reconhecer a genialidade de Will”, disse a atriz Jessie Buckley sobre a cena. “Ele cria esse portal para todos nós podermos transcender a dor que é pesada demais para suportarmos sozinhos”, continuou.

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“Quando começamos a filmar no Globe, eu estava tão perdida, não sabia o que ia fazer, qual seria minha reação. No final, foi uma libertação depois de uma jornada emocional tão intensa.”

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A diretora disse que, ao final da cena, continuou filmando, como que à espera de um sinal, que veio numa expressão inesperada de Agnes. O resto, como queria Buckley e como diz Hamlet, é silêncio.

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