Aprendi com Costanza Pascolato o conceito que “elegância é adequação”, a roupa certa para cada situação, não adianta ser linda mas não combinar com a pessoa, o evento, o encontro, que se aplica a vários campos, inclusive a música. O repertório certo para a voz e o estilo do artista. Não basta a música ser bonita. Se cantada por uma voz e estilo inadequados, é desastre certo. Por melhor que seja o cantor. É preciso ter afinidade e intimidade com a música, como uma relação amorosa, em que duas boas pessoas, juntas, podem se tornar péssimas. Incompatibilidade de gênios. Mesmo que sejam dois gênios. A harmonia sonora é a ideia fundamental, mas a variante da “harmonia por contraste” também funciona: juntar coisas aparentemente opostas mas que juntas surpreendem e se integram, criando uma novidade.
É o caso do álbum “Bossa sempre nova”, uma escolha ousada e corajosa de Luísa Sonza, 27 anos, cantando um repertório dos anos 1960/70 com Roberto Menescal e Toquinho, dois dos melhores violonistas brasileiros de todos os tempos, e autores de vários clássicos recriados por uma estrela internacional pop-eletro-funk-dance-etc. E por que não a velha e eterna bossa nova.
De cara, uma potente e ultrassuingada versão de “Consolação”, clássico de Baden Powell e Vinicius de Moraes, com o violão de Toquinho, e Luísa usando e valorizando os graves e agudos que a melodia exige. Uma música já gravada pelas melhores vozes brasileiras ressurge fresca e renovada com Luísa. Usando uma das expressões favoritas de João Gilberto: “Um escândalo.”
E João, o inventor, sempre disse: “Bossa nova é samba.” A síntese do samba. A bossa não só é sempre nova como é muitas. Como cantou Caetano: “A bossa nova é foda.”
Luísa tem uma voz e um jeito de cantar que seriam inaceitáveis na época em que as músicas foram feitas. Bossa nova era cool, intimista, minimalista. O fraseado, as divisões rítmicas, o cânone gilbertiano rigoroso. Mas agora é uma cantora pop potente e explosiva que contribui para a renovação da bossa.
O álbum tem muitos pontos altos, como “Você”, em dueto com Menescal, “Triste”, de Tom Jobim, “Tarde em Itapoã”, com Toquinho. É muito emocionante ouvir as vozes dos avôs cantando com uma neta, integrados pelo amor à beleza eterna da bossa nova.
Pontos altíssimos, os clássicos de Menescal e o grande Ronaldo Bôscoli, “Nós e o mar” e “Ai se eu pudesse”, um longo e lindo improviso vocal em “O barquinho”, e uma improvável parceria com Menescal, “Um pouco de mim”. Luísa também é boa compositora de bossa nova rsrs.
Repertório impecável. Meio deslocados só o sambão de Zé Kéti “Diz que fui por aí”, que de bossa nova tinha nada, mas virou, com a gravação de Nara Leão, e o belo bolero “Onde anda você”.
Sim, há algumas pequenas imperfeições vocais, emissões, afinações, que poderiam ser “corrigidas” em segundos por qualquer auto-tune, mas ela e os produtores escolheram deixar como está, dando humanidade, proximidade, intimidade. Alguns aparentes defeitos, no conjunto, viram qualidade. Bravo, Luísa!
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