O destruidor da Serra do Curral

Na manhã desta quarta-feira (17), a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram uma operação que investiga a corrupção de servidores públicos na área ambiental e de mineração em Minas Gerais. A suspeita é de que empresários pagavam propina para liberar projetos e fraudar licenças ambientais. Segundo a PF, o líder desse grupo criminoso é Alan Cavalcante do Nascimento, um alagoano que fez fortuna na mineração e deixou um rastro de devastação no estado. A piauí publica, abaixo, o trecho de uma reportagem de outubro de 2023 que conta a história de Nascimento e seus rolos na Justiça.

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A festa de Réveillon do empresário Alan Cavalcante do Nascimento talvez seja a coisa mais parecida com as luxuosas farras de O grande Gatsby que Alagoas já viu. Na sua mansão de três andares, no Laguna Heliport, o condomínio com o metro quadrado mais caro do estado, o empresário promove três semanas de festa, com direito a pool party e passeios de catamarã. O ponto alto é o dia da virada para o Ano-Novo, quando cerca de quinhentos convidados costumam assistir a shows ao vivo – o último foi o da banda Saia Rodada, cujo cachê pode chegar a 400 mil reais por apresentação. O notável é que, há apenas dez anos, a diversão de Alan Cavalcante – ele prefere ser chamado pelo primeiro sobrenome – limitava-se a corridas de motocross e comemorações no modesto quintal da casa em que vivia, uma edícula em Arapiraca, no agreste alagoano.

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“Eu não era pobre, eu era muito pobre”, disse ele, em conversa com a piauí. “Eu enriqueci com muito trabalho, de segunda a segunda, mais de doze horas por dia.” Em abril do ano passado, numa festa de aniversário, o empresário se emocionou, abraçado à sua mulher, Monica, e à sua irmã Alany, a aniversariante do dia, quando a dupla sertaneja César Menotti & Fabiano, em um show na mansão do Laguna, cantou Tá chorando por quê?. A letra fala de como a prosperidade chega com a bênção divina: Lembra de onde você veio e aonde que você chegou/Lembra de todos os livramentos que você já passou/Nem era para você estar aqui/Mas Deus falou assim:/“Esse aí vou levantar”/“E onde colocar a mão ele vai prosperar.”

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E Cavalcante prosperou. Seu patrimônio formal inclui um conglomerado de 38 empresas, entre mineradoras, construtoras e imobiliárias, a maioria em Minas Gerais, e uma multiplicidade de sócios. O capital social de suas empresas, somado, passa de 100 milhões de reais. Em junho passado, seu rosto tornou-se mais conhecido nas redes sociais quando deu o maior lance no leilão beneficente do atacante Neymar, em São Paulo: 1,2 milhão de reais pelo blazer e pelo cordão de ouro e diamantes que o jogador usava no evento. O valor incluiu ainda o Rolex de um empresário amigo do jogador.

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O que mais chama a atenção é seu sucesso na exploração de minério de ferro – e o efeito devastador que sua empreitada está gerando. Até o início da década de 2010, Cavalcante nunca havia trabalhado no ramo, e hoje é dono de quatro jazidas de minério, que totalizam 4,5 mil hectares, num local especial: a Serra do Curral, a imponente cadeia de montanhas em cujo sopé foi construída, no fim do século XIX, a cidade de Belo Horizonte.

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Durante décadas, esse cartão-postal da capital mineira, que se espalha por 55 km2, foi alvo da cobiça das mineradoras. Entre 1973 e 2002, a exploração de uma mina e a abertura de uma estrada de ferro pela mineradora Vale desfiguraram parte do maciço, rebaixando-o em cerca de 100 metros. Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Triste horizonte, de 1976, lamenta essa amputação: Proibido sentir o ar de liberdade destes cimos,/proibido viver a selvagem intimidade destas pedras que se vão desfazendo em forma de dinheiro./Esta serra tem dono./Não mais a natureza a governa./Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade / Desiste ou leva bala./Encurralados todos, a Serra do Curral, os moradores cá embaixo.

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Duas décadas depois, a Serra do Curral voltou a despertar a cobiça do setor minerário – e Cavalcante tornou-se um dos mineradores mais ativos. “Com o fim do pesadelo da mina da Vale, pensávamos estar finalmente livres de qualquer ameaça à serra. Agora, porém, a destruição voltou com força”, afirma o geógrafo Alessandro Borsagli, que há décadas estuda a história da Serra do Curral.

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Nos últimos cinco anos, Cavalcante já foi autuado dezoito vezes e multado num total de 2,6 milhões de reais, por captar sem autorização a água de um rio e por desmatar pelo menos 67 hectares na Serra do Curral, reduzindo a mata nativa a imensas cavas. A Fleurs, nome do seu grupo empresarial, ocupa o terceiro lugar entre as empresas mais autuadas por infrações ambientais no estado de Minas Gerais no período de 2018 a 2023.

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A curiosidade em torno da riqueza minerária de Cavalcante se acentuou a partir de 2020. Naquele ano, fiscais da Secretaria de Meio Ambiente de Minas (Semad) flagraram uma de suas empresas fazendo extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral. A Polícia Federal entrou no caso e um relatório preliminar levantou suspeitas sobre o tipo de relação do empresário com suas dezenas de sócios. Assinado pelos agentes Welington Fonseca e Jorge Dexheimer Pereira da Silva Júnior, o documento da Semad, ao qual a piauí teve acesso, afirma: “Vários desses atuais sócios das empresas investigadas são apenas ‘laranjas’, não possuindo condições financeiras nem tão pouco conhecimento técnico no ramo de mineração e nem administrativo para gerirem as empresas.”

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Há outras curiosidades. Pelo menos duas das empresas do conglomerado de Cavalcante informam estar sediadas em Maceió – em endereços que não existem. Uma terceira, a NA@LA Participações, está localizada em uma residência na periferia de Arapiraca, no interior de Alagoas, cujos moradores nunca ouviram falar da empresa ou do empresário. Foi em nome da NA@LA que, em dezembro de 2021, Cavalcante comprou por 12,3 milhões de reais, à vista, uma casa de 1 mil m2 em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte.

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Assinantes da piauí podem ler aqui a reportagem completa.

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