O anúncio feito pelo presidente Donald Trump no último domingo (3) de que os militares americanos escoltariam navios pelo estreito de Hormuz irritou o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman (MbS), que negou a Washington acesso ao espaço aéreo saudita e a bases no país.
A ação do príncipe surpreendeu autoridades americanas e forçou Trump a abandonar seu plano, de acordo com uma autoridade militar americana familiarizada com o assunto. Os sauditas, desde então, suspenderam as restrições às bases e aos sobrevoos, mas ainda não concordaram em permitir o uso de seu território em apoio ao chamado "Projeto Liberdade", como Trump batizou a operação.
Trump interrompeu a operação de escolta na terça-feira (5), após vários telefonemas entre Washington e a Arábia Saudita, incluindo uma ligação entre Trump e MbS. Naquela noite, o presidente americano anunciou que tinha pausado a operação, menos de 24 horas depois de seu início.
O republicano disse ainda que estava reagindo a novos progressos em direção a um acordo de paz com o Irã, embora nenhuma evidência de um avanço significativo tenha surgido desde então.
Mesmo que o desacordo dos EUA com Riad sobre as escoltas de petroleiros seja resolvido, a recusa inicial saudita de apoio sugere que a abordagem imprevisível e oscilante de Trump em relação ao Irã tensionou as relações com um de seus aliados mais próximos.
Ainda em meados de março, MbS estava pressionando Trump a continuar sua campanha de bombardeios contra o Irã com o objetivo de derrubar o regime e livrar seu país de um adversário de longa data, segundo pessoas informadas por autoridades americanas sobre as conversas. Autoridades sauditas contestam esses relatos.
O cálculo do príncipe herdeiro mudou desde então. Trump, em vez disso, concordou em abril com um acordo de cessar-fogo com os líderes iranianos, e MbS agora está tentando ajudar a encerrar o conflito apoiando negociações de paz por meio do aliado da Arábia Saudita, o Paquistão.
Autoridades iranianas disseram na quinta (7) que o Irã e os Estados Unidos estavam discutindo uma proposta para reabrir o estreito de Hormuz e encerrar as hostilidades, que se intensificaram novamente, por 30 dias, enquanto buscam um acordo abrangente que inclua questões como o programa nuclear iraniano.
Uma pessoa informada por autoridades sauditas confirmou que o país havia negado aos EUA permissão para que as forças americanas sobrevoassem a Arábia Saudita durante a missão da escolta dos petroleiros, a qual Riad acredita que não foi bem estudada. Autoridades do país no Oriente Médio também temiam que isso levaria a uma escalada com o Irã.
Sinais de uma ruptura entre Trump e o príncipe herdeiro podem encorajar o Irã, enquanto o país persa busca vantagem em negociações com os EUA diante de sinais de que Trump está ansioso por um acordo.
O Centro de Comunicação Internacional do regime saudita, que lida com consultas de jornalistas, não respondeu a um pedido de comentário. A embaixada saudita em Washington também não se manifestou.
O atrito surgiu depois que Trump escreveu no domingo, em sua conta no Truth Social, que os militares americanos começariam a guiar navios comerciais pelo estreito entre o Irã e a Arábia Saudita. A maior parte do tráfego marítimo por Hormuz foi interrompida desde que o Irã começou a atacar petroleiros em resposta à campanha conjunta de bombardeios feitos por EUA e Israel, que começou em fevereiro.
Trump inicialmente descreveu a operação como uma missão humanitária destinada a libertar navios e tripulações que estavam presos no estreito por semanas ou meses, embora sua retórica tenha se tornado mais belicosa após o anúncio. Na segunda (4), o presidente americano alertou que poderia varrer o Irã "da face da Terra" se ele atacasse embarcações americanas em Hormuz
Na terça, autoridades sauditas notificaram contrapartes americanas de que elas não poderiam usar o território ou espaço aéreo de seu país para a operação, segundo um funcionário militar americano. Isso tornou o plano inviável: escoltas navais americanas pelo estreito exigiriam apoio aéreo substancial para proteção, incluindo o uso de caças e helicópteros de ataque.
Três pessoas que falam frequentemente com autoridades sauditas disseram que o episódio mostra frustração crescente em Riad com a gestão impulsiva de Trump em seu embate com o Irã. O republicano deixou seus objetivos estratégicos obscuros e suas táticas sujeitas a mudanças repentinas, com frequência pegando aliados de surpresa.
Em seus primeiros anos, MbS adotou uma abordagem linha-dura em relação ao Irã, que incluiu uma desastrosa campanha de bombardeios no Iêmen lançada para combater rebeldes houthis apoiados pelo Irã. Mas, nos últimos anos, ele priorizou a diplomacia em vez da ação militar, e em 2023, a Arábia Saudita restaurou relações diplomáticas com Teerã após décadas de profunda hostilidade.
A mudança reflete a visão do príncipe herdeiro de que a estabilidade regional é crucial para suas ambições econômicas mais amplas, que envolvem transformar a Arábia Saudita em um polo global de negócios e turismo, dizem autoridades sauditas e analistas.
Depois que Trump entrou em guerra contra o Irã, o principal interesse do príncipe herdeiro era ver uma vitória decisiva contra o regime iraniano. Apesar do alívio das tensões em 2023, a Arábia Saudita ainda considera o país uma ameaça à sua segurança.
Agora que ficou claro que a guerra provavelmente não provocará uma mudança de regime, o príncipe herdeiro está ansioso para encerrar o conflito. Na esperança de acelerar um acordo entre os dois lados, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita tem conversado com seu homólogo iraniano, segundo uma das pessoas em contato com autoridades sauditas.
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