Quando se aproximou do veículo de Renee Good em uma rua de Minneapolis na última quarta-feira, Jonathan Ross, agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), ergueu o celular e começou a gravar. Menos de um minuto depois, ele ainda registrava as imagens quando sacou a arma e a matou a tiros. O caso ganhou repercussão global, levando a um novo escrutínio sobre as táticas e o treinamento dos milhares de agentes do órgão mobilizados nos esforços de deportação em massa do governo de Donald Trump e chamando a atenção para a violência que se tornou rotina na atuação do ICE. Ainda que autoridades tenham se esforçado para minimizar o ocorrido, ele não é isolado: apenas uma semana após a morte de Renee, outro agente disparou contra um migrante venezuelano na mesma cidade.
— Há semanas estamos alertando que as operações perigosas e sensacionalistas do governo Trump representam uma ameaça à nossa segurança pública [e] que alguém acabaria se machucando — disse o governador de Minnesota, Tim Walz, após a morte de Renee, americana de 37 anos. — Hoje, essa imprudência custou a vida de alguém.
À Reuters, Trump adotou um tom conciliador ao comentar o caso, afirmando na quarta-feira que foi “triste de ver dos dois lados”. Nesta quinta, no entanto, o republicano voltou a endurecer o discurso e ameaçou invocar uma lei de 1807 para enviar tropas e reprimir os protestos contra a presença de agentes federais em Minneapolis. Trump tem reiterado a possibilidade de recorrer à Lei da Insurreição, um dispositivo raramente usado que autoriza o emprego das Forças Armadas dos EUA ou a federalização da Guarda Nacional para ações de segurança interna, inclusive sem o consentimento dos governadores estaduais, que se mobilizaram para aprovar legislação para conter a atuação do ICE em estados democratas — da Califórnia a Nova York, Illinois e Nova Jersey — após a morte de Renee.
Vídeo mostra momento em que agente do ICE atira em mulher em Minneapolis
Ao mesmo tempo, o Departamento de Segurança Interna (DHS) vem recrutando uma nova leva de agentes — mais de 12 mil nos últimos meses, em um ritmo “mais rápido do que qualquer esforço anterior na história da agência”, segundo autoridades ouvidas pelo Washington Post (WP). A corrida levantou preocupações de que o órgão esteja reduzindo o rigor do treinamento para aumentar o número de oficiais em campo. Se em 2018 a preparação básica durava 20 semanas, por exemplo, agora ela foi reduzida para oito, cortando “redundâncias e incorporando avanços tecnológicos”, justificou o DHS. Entre os cortes estão aulas de espanhol, com agentes passando a usar “serviços robustos de tradução”.
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Especialistas em policiamento, porém, apontam para erros que elevam riscos desnecessários nas abordagens e contrariam as melhores práticas de aplicação da lei. A política de uso da força do DHS orienta os agentes a tentar desescalar tensões, permitindo o uso da força letal apenas se eles acreditarem que alguém enfrenta uma ameaça iminente de morte ou ferimentos graves. A medida proíbe, entre outras coisas, que agentes atirem contra motoristas de veículos em movimento, como no caso de Renee. A porta-voz do DHS, Tricia McLaughlin, disse ao WP que a política, atualizada pela última vez em 2023, continua em vigor.
“Os agentes de aplicação da lei do ICE são treinados para usar a menor quantidade de força necessária para resolver situações perigosas, priorizando a segurança do público e de nossos agentes”, afirmou em nota. “Os agentes são altamente treinados em táticas de desescalada e recebem regularmente treinamento contínuo sobre uso da força.”
Inúmeros vídeos nas redes sociais, no entanto, mostram o contrário. Um deles, gravado em Maryland, mostra um homem imobilizado no chão por dois agentes do ICE. Ele implora, em espanhol e em inglês, para que alguém o ajude. Durante o incidente, um dos agentes deixa sua arma cair e tenta recuperá-la de forma atrapalhada. Em seguida, parece apontá-la para pessoas que estavam ao redor. O padrão violento se repete: em setembro, um homem de Chicago foi atingido na cabeça por um projétil preenchido com substâncias químicas irritantes. Identificado como David Black, ele entrou com uma ação judicial contra o governo Trump.
— Esses são apenas a ponta do iceberg — disse Fred Tsao, assessor sênior de políticas da Coalizão de Illinois pelos Direitos de Imigrantes e Refugiados, à NPR. — Pessoas sendo derrubadas no chão, gente levando spray de pimenta ou gás lacrimogêneo. Vimos pessoas sendo ameaçadas. E vimos pelo menos dois episódios envolvendo disparos de arma de fogo.
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Sob Trump, o Serviço de Imigração vem intensificando sua atuação também no entorno de escolas públicas, o que tem resultado em protestos de estudantes e no cancelamento de aulas. O temor em relação ao ICE — que era proibido de atuar em áreas escolares até o governo do republicano revogar a determinação em 2025 — tem levado a quedas na frequência dos alunos, e estudantes têm organizado paralisações em protesto contra o aumento das ações de fiscalização. Na semana passada, dois professores teriam sido algemados em Minneapolis durante um confronto com agentes, episódio que fez com o que aulas fossem canceladas. Instituições passaram a planejar oferecer ensino remoto.
— Estamos vendo pessoas deixando de ir a consultas médicas, crianças faltando à escola, pessoas evitando até ir ao supermercado — disse Sarang Sekhavat, chefe de gabinete da Massachusetts Immigrant & Refugee Advocacy Coalition, à rede americana. — Você vê muitos negócios nesses bairros realmente sofrendo porque as pessoas simplesmente não querem sair de casa.
Em maio de 2025, o ICE realizou o que autoridades descreveram como a maior operação de fiscalização da história da agência, prendendo mais de 1,4 mil pessoas em comunidades de todo Massachusetts. Em toda a Nova Inglaterra, outros casos de grande repercussão incluíram agentes do ICE detendo um estudante de doutorado da Universidade Tufts que assinou um artigo de opinião em um jornal estudantil crítico a Israel e quebrando o vidro do carro de um imigrante para arrancá-lo do banco do passageiro diante da esposa. A rede de prisões do ICE capturou também pessoas como Geovani Esau De La Cruz Catalan, preso em frente à sua casa apenas alguns dias depois de receber o diploma do ensino médio.
— As táticas agressivas do ICE na região têm sido marcadas por um nível geral de crueldade e brutalidade — afirmou Daniel Kanstroom, professor de Direito do Boston College e fundador da clínica de direito de imigração e asilo da universidade. — Nunca vimos agentes mascarados antes. Nunca vimos estudantes presos por escrever artigos de opinião. Nunca vimos pessoas sendo arrancadas de tribunais de imigração.
A abordagem do órgão, com agentes mascarados em todo o país, abriu espaço para que criminosos começassem a se passar por membros do ICE para cometer crimes violentos. Na Carolina do Norte, um homem que se passou por agente do ICE entrou no quarto de hotel de uma mulher e a abusou sexualmente, dizendo que a deportaria caso ela não mantivesse relações sexuais com ele. No Brooklyn, um homem conduziu uma mulher até uma escada, onde a agrediu com socos e tentou estuprá-la. Na Flórida, outro homem sequestrou uma mulher que concordou em acompanhá-lo acreditando tratar-se de um agente do órgão.
Dados do próprio ICE mostram que os centros de detenção de migrantes também podem ser locais letais para quem está sob custódia. Comunicados do órgão revelam que o ano de 2025 foi o mais letal para detidos pelo Serviço de Imigração em duas décadas: ao menos 30 pessoas morreram enquanto estavam detidas, o maior número desde 2004, ano seguinte à criação da agência. O total do último ano supera também o número de mortes registradas sob custódia do ICE durante todo o governo do democrata Joe Biden (2021-2025), quando 26 detidos morreram, segundo dados compilados pela Associação Americana de Advogados de Imigração.
A tendência se mantém preocupante: em 2026, pelo menos quatro pessoas morreram enquanto estavam detidas pelo ICE. Todas as mortes ocorreram nos primeiros dez dias do ano, três delas anunciadas entre 9 e 10 de janeiro. Os migrantes, todos homens, tinham entre 42 e 68 anos. Dois eram cidadãos de Honduras, um de Cuba e outro do Camboja. Dois óbitos foram atribuídos a “problemas de saúde relacionados ao coração”, enquanto as outras duas causas não foram claramente especificadas. Um desses últimos casos foi indicado como “sob investigação”.
Observadores externos manifestaram preocupação com o nível de atendimento médico oferecido aos detidos. Um relatório de 2024 da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) concluiu que até 95% das mortes ocorridas sob custódia do ICE poderiam ter sido evitadas com atendimento adequado. O estudo analisou mortes sob custódia do ICE entre 2017 e 2021, durante o primeiro governo Trump, encontrando evidências generalizadas de tratamentos incorretos ou inadequados, além de atrasos graves no atendimento médico.
“Essas violações rotineiras de garantias legais demonstram o desprezo do governo Trump pelos direitos dos imigrantes”, escreveram os deputados Robert Menendez e Dan Goldman em carta assinada por outros 52 parlamentares. “E o uso intencional de táticas de intimidação que minam a confiança pública e alimentam o medo em nossas comunidades”.
(Com agências internacionais)
