O fogo ameaçou consumir uma página da história da imigração polonesa em Curitiba. Em dezembro de 2012, um incêndio em um apartamento parecia ser a bola de demolição do Edifício Brasil, uma das primeiras edificações verticais do bairro das Mercês, construído em 1959 por um imigrante judeu polonês que, em 1942, fugiu de um gueto em seu país durante a ocupação nazista. Um projeto de retrofit em análise quer manter essa história viva.
O retrofit é um processo de recuperação de construções antigas que conserva as características principais do projeto original, como o estilo arquitetônico, e atualiza elementos que podem ser melhorados.
O edifício de três andares e 11 apartamentos com área comercial no térreo já enfrentava um processo lento de degradação antes do incêndio. As transformações urbanas e a ausência de garagem foram tirando o brilho da edificação, em meio a um bairro central que se verticalizava. Em 2014, o prédio foi definitivamente abandonado.
No ano passado, a incorporadora Weefor adquiriu o edifício da família de Nathan, por meio de seu neto, por R$ 3 milhões. A revitalização coordenada pela empresa conta com projeto do Estúdio 41, escritório de arquitetura de Curitiba com alguns prêmios na bagagem. O projeto está em análise pelo Conselho Municipal de Urbanismo. A expectativa é que a aprovação saia até dezembro deste ano. Com o aval da prefeitura, a projeção da companhia é que as obras durem dois anos.
Para desenhar o projeto, a construtora ouviu moradores do bairro, trabalhadores e quem circula por ele. “Entrevistamos 180 pessoas para entender o que elas acham do retrofit”, informa Maria Eugênia Fornea, CEO da Weefor e presidente da Ademi-PR (Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná). O espaço comercial vai ser mantido no térreo, e o edifício vai seguir sem garagem.
“Muitos dos entrevistados, que se colocam como potenciais interessados, colocaram o carro como algo não tão necessário na vida deles”, conta a executiva. “O que foi uma surpresa positiva, porque a gente entende que comprometeria a integração com o entorno se fosse preciso colocar vagas de garagem”, completa. Este é o primeiro projeto de retrofit da Weefor.
O Brasil das Mercês
O Edifício Brasil foi construído em 1959 em alvenaria estrutural por Nuchym Szniter, ou Nathan, como ficou conhecido. Ele desembarcou em Curitiba em 1947, aos 27 anos de idade, fugindo dos horrores do nazismo, sem dinheiro e sem falar português.
Iniciou os dias na capital como mascate e prosperou como comerciante, até se interessar pelo setor imobiliário. No fim dos anos 50, escolheu a Visconde de Rio Branco (número 709), entre a rua Martim Afonso e a Alameda Júlia da Costa, para o empreendimento.
No projeto original, fachadas e pilar com pastilhas coloridas, corredores em granilite e sacadas com elemento vazado. O nome do prédio é um gesto de gratidão pela oportunidade de recomeçar a vida no país. Foram 20 anos de funcionamento pleno, com famílias ocupando os apartamentos e atividade comercial intensa. Mas assim como toda a cidade, o bairro também se transformou.
Se nos anos 30, carroças saídas de Santa Felicidade atravessavam as Mercês, a reportagem “Um bairro em mutação”, de 1998 da Gazeta do Povo, registrou que, para melhorar o fluxo de veículos, a prefeitura investiria R$ 346 mil para remodelar ruas do bairro. Moradores pediam a implantação de sinaleiros para pedestres, e comerciantes queriam faixas específicas para o estacionamento dos clientes. Naquele ano, a frota de veículos no bairro era de 10.713, o equivalente a 0,76 por habitante, acima da média de Curitiba, que era de 0,50.
A passagem do tempo atingiu o Edifício Brasil. Pouco antes do incêndio, apenas uma unidade comercial estava em funcionamento, e muitos apartamentos estavam vazios.
Em julho de 2013, o prédio já dava sinais de abandono, com o fechamento do último comércio e pichação vista em parte da fachada. Em maio do ano seguinte, o local foi desocupado, e portas e janelas lacradas com concreto e madeirite. A degradação e a ocupação informal do espaço trouxeram insegurança à região.
“Preservar a alma do edifício”
“Ao invés de demolir para construir o novo, optou-se por preservar a alma do edifício, adaptando-o às necessidades contemporâneas”, informa material da Weefor sobre o retrofit do Edifício Brasil. “A ausência de garagens (…) é agora ressignificada para um público que valoriza a mobilidade urbana, a caminhabilidade e a vida no bairro”, define.
Para a Weefor, afirma a CEO, o desafio é evitar a gentrificação da localidade em uma eventual euforia causada pelo projeto de recuperação. “A gente quer trazer pessoas para morar, gerar moradias e resgatar a vida de um bairro muito importante, que é a região central de Curitiba. O maior desafio é juntar todas as variáveis, principalmente custo, para conseguir manter a memória sem que isso expulse pessoas”, afirma.
A construtora vai ter de esperar o início das obras para saber o investimento na restauração. Mas trabalha inicialmente com a expectativa de ofertar o metro quadrado a partir de R$ 11 mil. “Esperamos não passar disso, mas não posso garantir que não vá passar”, diz Maria Eugênia.




