“No gozo de férias parlamentares, encontra-se nesta capital desde quinta-feira última, procedente do Rio de Janeiro, o Dr. Getúlio Vargas, líder da maioria da bancada rio-grandense na Câmara Federal. Nos trabalhos da última reunião da presente legislatura, S. Exa. muito se salientou, tomando parte ativa em todos os debates sobre importantes problemas da vida nacional. E, dado o posto de líder e o conceito em que é tido entre os seus colegas de deputação, achamos oportuno ouvi-lo.
O Dr. Getúlio Vargas recebeu-nos ontem no departamento especial que ocupa, no quarto andar do Grande Hotel, com aquela proverbial gentileza que tanto o caracteriza. Depois de haver-lhe apresentado os cumprimentos em nome desta folha pela sua chegada a esta capital, entabulamos a palestra.
A situação política do país
Um dos primeiros assuntos que abordamos foi a situação política do país. E o Dr. Getúlio Vargas, falando com criteriosa ponderação, respondeu-nos.
‘À sua primeira pergunta — disse-nos o brilhante líder da maioria da bancada gaúcha — sobre a situação geral do país, posso responder que é boa. As forças políticas dominantes de todos os Estados apoiam o Sr. Presidente da República, dão-lhe todo o prestígio. Oposição existe na Câmara dos Deputados e no Senado, e embora seja tenaz e batalhadora, é insignificante pelo número. Quanto ao movimento de perturbação da ordem, está reduzido, hoje, às incursões dos revolucionários nos Estados do Piauí e Maranhão [referência à Coluna Prestes], porém sem esperanças de vencer. Estão lutando unicamente pela anistia e têm apenas dois recursos a seu favor: ou fugir para o estrangeiro, onde sofrerão privações, ou apresentar-se às autoridades, a fim de serem recolhidos às prisões.
‘Nestas condições — continuou o Dr. Getúlio Vargas — vão lutando com o intuito de manter este estado de intranquilidade, obrigando o governo federal a grandes despesas, forçando-o, por esse meio, à adoção de medidas benevolentes, isto quanto principalmente aos militares, cuja situação é das mais críticas.’
E, já que falamos em anistia, poderá V. Exa. informar-nos qual é a opinião dominante sobre este ato?
‘A maioria da política dominante no país não é favorável à anistia, principalmente enquanto os rebeldes se mantiverem de armas na mão. Além disso, os recursos militares de que dispõem os revolucionários são muito escassos. Estão esgotados de munições, internados no sertão, e sem fonte de reabastecimento de material de guerra. A luta está, portanto, reduzida a simples correrias de cangaceiros.’
Sobre a situação geral do país, perguntamos ainda ao Dr. Getúlio Vargas o que nos poderia informar acerca das nossas condições financeiras.
‘A situação financeira, com as medidas aplicadas com firmeza pelo governo federal, combatendo o inflacionismo, tem melhorado muito, refletindo-se na alta do câmbio e no equilíbrio orçamentário, que é um dos pontos do programa do atual governo. Não foi ainda conseguido o equilíbrio, não só pelas vultosas despesas a que ele tem sido obrigado para manutenção da ordem pública, como também porque este equilíbrio não se pode obter de um momento para outro. Tem que ser lento, por vários anos, exigindo firme decisão, principalmente a continuidade do critério administrativo e na constante compressão de despesas inúteis ou adiáveis.’
A frente única das bancadas rio-grandenses
Sobre a situação geral do país, o Dr. Getúlio Vargas já se tinha manifestado. Continuamos a ouvir o líder da bancada da maioria gaúcha. — E assim indagamos o que de positivo havia sobre a propalada organização de uma frente única das duas bancadas deste Estado perante a política federal, pois se falava em nomes de membros de destaque que estavam tratando desta combinação.
‘Não se tratou, nem se poderia tratar da organização de uma frente única das duas bancadas perante a política federal — respondeu-nos o Dr. Getúlio Vargas — porque a situação política do Rio Grande do Sul perante o governo federal está perfeitamente definida. O Partido Republicano, chefiado pelo Dr. Borges de Medeiros, apoia a política do governo federal, enquanto que a Aliança Libertadora está em oposição a esse governo. É verdade que a representação do Rio Grande do Sul, quer da situação, quer da oposição, em palestras particulares, pensa que, uma vez que não se trate de assuntos políticos, mas de pleitear qualquer serviço ou medida que venha beneficiar os interesses gerais do Estado, não há incompatibilidade alguma na união dos seus esforços no sentido de obter essa medida de interesse geral. Bem vê, pois, que se trata de assuntos de natureza administrativa e não de assuntos políticos. A respeito disso, não há, porém, uma combinação nem um plano organizado, e sim um entendimento resultante do bom senso, aconselhado pela própria natureza do assunto. É um critério de natureza patriótica, no sentido de não se prejudicar, por divergências políticas, assuntos de interesse geral do Estado, desde que isto de maneira alguma afete o ponto de vista político em que estejam colocados os representantes deste Estado no Congresso Nacional.’
A sucessão presidencial
Telegramas do Rio de Janeiro anunciavam que a viagem de V. Exa. a este Estado prendia-se também à sucessão presidencial do Rio Grande do Sul? Respondeu-nos o Dr. Getúlio Vargas:
‘Sobre a sucessão presidencial do Estado, tenho a dizer que as notícias dadas pelos jornais do Rio de Janeiro a este respeito não têm o menor fundamento. Trata-se da curiosidade natural de jornalistas que, não conhecendo a organização política do Rio Grande do Sul, nem as práxis seguidas na disciplina do partido republicano, sugerem alvitres e redigem notícias de acordo com as suas simpatias ou antipatias, às vezes pelo simples intuito de dar pasto à curiosidade pública.’
Então, V. Exa. veio…
‘Eu vim simplesmente no gozo de férias parlamentares, e breve daqui seguirei para a minha terra natal, em São Borja. A sucessão presidencial do Estado será em tempo oportuno resolvida pelo chefe do partido republicano, que é o dr. Borges de Medeiros, ouvindo, como é de praxe, as direções políticas locais ou os próceres de mais prestígio na política do Estado. Ora, eu sou um simples mandatário do meu partido na representação federal; não sou chefe político.’ […]”
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O dia 17 de fevereiro na história
- 1600 Morre em Roma executado pela Inquisição o filósofo, poeta e esoterista italiano Giordano Bruno.
- 1673 Morre em Paris o dramaturgo, ator e escritor Molière.
- 1753 A Suécia adota o calendário gregoriano, passando do dia 17 de fevereiro para 1º de março.
- 1905 O grão-duque Serguêi Alexandrovich é assassinado em Moscou pelo revolucionário socialista Ivan Kaliáiev.
- 1909 Morre em Oklahoma o líder e curandeiro do povo originário Apache, Gerônimo.
- 1947 As Cataratas do Niágara, entre os EUA e o Canadá, congelam com o frio intenso.
- 1949 Chaim Weizmann inicia seu mandato como primeiro presidente do Estado de Israel.
- 1959 O primeiro satélite climático, Vanguard 2, é lançado para medições da cobertura das nuvens.
- 1963 Nasce em Nova Iorque o ex-jogador de basquete Michael Jordan, considerado o melhor de todos os tempos.
- 1964 O presidente do Gabão, Léon M’ba, é derrubado e seu rival, Jean-Hilaire Aubame, é empossado.
- 1972 As vendas totais do Fusca superam aquelas do histórico Ford Modelo T, o primeiro automóvel de massa.
- 1972 Nasce na Califórnia o músico e ator Billie Joe Armstrong, líder da banda Green Day.
- 1973 Morre no Rio de Janeiro o compositor, maestro, flautista e saxofonista Alfredo da Rocha Vianna Filho, Pixinguinha.
- 1979 Começa a Guerra Sino-Vietnamita; durará menos de um mês.
- 1982 Nasce no Rio de Janeiro o ex-jogador Adriano “Imperador”.
- 1982 Morre em New Jersey o pianista de jazz e compositor Thelonious Monk.
- 1995 Guerra de Cenepa: Equador e Peru lutam em curto conflito junto à fronteira.
- 1996 O russo Gary Kasparov vence o supercomputador Deep Blue em partida de xadrez disputada na Filadélfia.
- 1997 Morre em Brasília o antropólogo, sociólogo, historiador e político Darcy Ribeiro.
- 2008 O Kosovo declara independência da Sérvia.
- 2011 Começam os protestos contra o regime de Muammar Gaddafi na Líbia durante a Primavera Árabe.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios.
