As sanções, tarifas e ameaças do presidente americano Donald Trump contra o Brasil vão sair pela culatra, da mesma maneira que suas interferências em outros países deram errado. Para Alex Soros, 39, que assumiu o controle do império filantrópico construído por seu pai, o bilionário George Soros, 95, a tentativa do republicano de desestabilizar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está fortalecendo o líder brasileiro. “Ele está tornando Lula mais popular.”
Como presidente do conselho de administração da Open Society Foundations, Alex está à frente de uma organização com US$ 25 bilhões (R$ 125 bilhões) em ativos que patrocina causas progressistas ao redor do mundo.
Ele esteve na última semana em Brasília, onde se reuniu com autoridades, como os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Marina Silva (Meio Ambiente) e Anielle Franco (Igualdade Social) e o assessor internacional da Presidência, Celso Amorim. Depois, foi ao Rio participar de uma conferência no BNDES. Em sua terceira passagem pelo Brasil, experimentou peixes da Amazônia, tucupi preto e sorvete de cacau da chef Bel Coelho e matou a saudade de guaraná.
Em rara entrevista, Alex falou à Folha sobre estratégias para derrotar Trump, os exageros da esquerda em relação à linguagem, ofensiva antitruste contra as big techs, antissemitismo e as prioridades da fundação para o Brasil.
O governo brasileiro encara o tarifaço, as sanções e as ameaças de Trump contra o Brasil como uma tentativa de “mudança de regime”, de levar à saída do presidente Lula. O que o sr. acha?
Isso é indiscutível. Tudo isso é direcionado ao atual governo brasileiro, [o deputado federal do PL] Eduardo Bolsonaro está ditando aspectos da política dos EUA para o Brasil. Não é possível contemporizar com Trump, Lula teria de deixar de ser o Lula para que isso acontecesse, e o Brasil teria de ceder em sua soberania.
Um grupo de governadores da oposição tem dito que Lula não faz o suficiente para negociar com Trump. Qual a sua opinião?
Não há nada que se possa negociar com Trump. Alguém já fez um acordo ou fez negócios com Trump e acabou se saindo bem? Fora [Vladimir] Putin e Xi Jinping? E o que há para negociar? Negociar Bolsonaro e sua soltura?
Mas eu acho que o que Trump está fazendo vai sair pela culatra. Ele está tornando Lula mais popular [pesquisa da Quaest mostrou que a distância entre a avaliação positiva e negativa do governo, que era de 17 pontos, caiu para 8].
Globalmente, o efeito Trump faz com que a soberania agora seja parte da agenda de centro e de centro-esquerda. Com Mark Carney [primeiro-ministro canadense], os australianos, na Romênia, Trump perdeu em todos os lugares em que tentou influenciar eleições, com exceção da Polônia.
Em que sentido a soberania agora faz parte da agenda de centro?
O conceito de soberania nacional agora faz parte do centro, da centro-esquerda e centro-direita, porque o comportamento de Trump é uma ameaça à soberania em todo o mundo.
Em todos os lugares em que tentou interferir ou emplacar um “proxy”, ele fracassou. As pessoas querem votar contra Trump.
Da mesma forma que Putin é uma ameaça por causa de sua guerra na Ucrânia, em que tenta redesenhar fronteiras pela força, Trump é uma ameaça à soberania porque tenta desestabilizar governos.
E os progressistas não devem pensar no multilateralismo como uma perda de soberania, como no passado, porque, na verdade, ele é uma maneira de preservá-la.
É preciso fazer alianças para se proteger, compartilhar o fardo, diminuir os riscos. Trump vê o mundo por meio de esferas de influência. Ele quer expandir os EUA, acredita ter o direito de intervir na América Latina.
A direita e os populistas dizem que são a favor da soberania, mas Trump a ameaça. E isso é um problema para a direita, para os europeus como Giorgia Meloni [primeira-ministra da Itália] e outros que apoiaram Trump, porque agora eles têm de responder pelas ações do desestabilizador número um no mundo. Um governo que, além de tudo, foi instrumentalizado pelas big techs.
No Canadá, Trump ameaçou romper acordo comercial se o governo não suspendesse o imposto digital; no Brasil, os EUA fazem pressão contra a decisão do Supremo que muda o regime de responsabilidade das big techs.
Isso é interferência externa. E o pior é que são monopólios. Vamos precisar de um momento rooseveltiano de antitruste para que o sistema se mantenha justo [o presidente americano Theodore Roosevelt (1901-1909) lançou uma campanha contra oligopólios].
Minha esperança é que o Mercosul e a UE façam alianças para proteger a soberania digital, defender os direitos dos governos de enfrentar as grandes empresas de tecnologia. As big techs são, hoje, mais poderosas que países.
Trump tem perseguido estudantes, cortado recursos de universidades, deportado milhares sem direito de defesa, pressionado empresas. Por que não se vê uma oposição mais atuante?
Muitos progressistas percebem que o mais importante são as eleições de meio de mandato [em 2026]. A única maneira de sairmos dessa situação é através das urnas. É muito importante preservar o acesso e o direito das pessoas de votar.
O outro lado não quer que a maioria das pessoas vote. As instituições de ensino de elite e os interesses financeiros e empresariais se curvaram para Trump. Isso é desprezível. E muitos eleitores americanos se sentem impotentes. Mas vemos o entusiasmo gerado pela energia de Zohran Mamdani [candidato democrata à prefeitura de NY]. E energia supera ideologia.
Vimos a posição de liderança da legislatura do Texas [dezenas de deputados democratas fugiram do estado para evitar a votação de uma mudança no desenho dos distritos eleitorais que beneficia os republicanos, o que ocorreu na semana passada].
Gavin Newsom [governador da Califórnia] está sendo heroico, colocando seu próprio legado em risco [ele propôs um redesenho dos distritos para compensar os assentos do Texas, e a proposta também foi aprovada].
Precisa haver mais coragem, obviamente. A popularidade de Trump continua caindo [assumiu com aprovação de 47% e agora está com 37%, segundo o Instituto Gallup]. Ele herdou uma economia que estava crescendo e com a inflação em queda e piorou tudo. E vai ficar ainda pior daqui para frente.
E essa é uma das razões pelas quais se manipulam os mapas [dos distritos eleitorais] para manter o controle do Congresso.
Qual é a sua estratégia para as eleições de meio de mandato?
Temos de fazer todo o possível para vencer. Estamos apoiando algumas iniciativas. Estou otimista quanto ao Senado. Mas a estratégia política precisa ser a de ampliar nossos mapas.
Precisamos continuar o que estamos fazendo no sul [democratas tentando recuperar influência focando temas como a economia e segurança na fronteira], precisamos focar infraestrutura. Precisamos investir mais em mídia e vozes que sejam realmente capazes de chegar ao povo americano onde ele está.
O senhor compartilhou um artigo do [site] Politico que apontava a assimetria entre a mídia de direita e a de esquerda, e como a de direita tem mais força. O que deveria ser feito?
Precisamos de versões progressistas de Rupert Murdoch [dono da Fox News]. Aprendi que investimentos em mídia muitas vezes são mais eficazes do que na sociedade civil.
Democratas ricos precisam entender que não teremos regulação de mídia se não derrotarmos essa vertente do Partido Republicano, esse flagelo antiamericano. E para isso precisamos investir em mídia, é combater fogo com fogo.
O mais importante é encontrar as pessoas onde elas estão. Não há razão para que o UFC [Ultimate Fighting Championship] tenha de ser um monopólio republicano. É preciso ser inclusivo com os padrões sociais e culturais de todos os americanos.
Os democratas perderam isso, e precisamos recuperar. A maneira como nos comunicamos não é comunicável. Precisamos chamar as coisas como elas são, não dizer “progenitor gestante” em vez de mãe.
O sr. já afirmou que a esquerda foi longe demais na questão da linguagem.
Sou a favor da liberdade de expressão. Acho que os progressistas talvez tenham ido longe demais em relação à linguagem. Nunca gostei da cultura do cancelamento. A extensão dos direitos das mulheres não deveria ser uma ameaça para os homens, isso é absurdo.
Mas acho que é preciso usar táticas e linguagem que não sejam ameaçadoras para as pessoas, que não possam ser interpretadas de forma equivocada, e eu disse isso na minha própria organização.
É mais difícil nós defendermos o DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) porque ninguém sabe o que isso significa. As pessoas sabem o que significa violência sexual, estupro, brutalidade policial, e nós deveríamos estar falando de forma tangível.
Quais são as prioridades da Open Society no Brasil?
Inclusão democrática, empregos verdes e justiça climática são muito importantes. Trabalhamos com movimentos feministas e de minorias aqui, também tentamos ajudar com redução de danos [em dependência de drogas] e soluções comunitárias para o crime. Temos parceiros locais na Amazônia para tentar encontrar maneiras de ter crescimento econômico, mas também cuidar do ambiente.
Seu pai e o sr. têm sido alvos frequentes de antissemitismo em todo o mundo. O sr. acha que exista uma relação entre o que o governo israelense está fazendo em Gaza e o aumento do antissemitismo?
O que está acontecendo em Gaza será visto na história como um genocídio. Mas, da mesma maneira que não se pode dizer que alguém é antissemita porque está criticando Israel, de maneira alguma os judeus deveriam ser responsabilizados pelo comportamento de Israel. E também não se pode responsabilizar todas as pessoas em Gaza pelo comportamento do Hamas.
Mesmo assim, ainda acho que os judeus, inclusive da diáspora, estão muito mais vulneráveis a ataques da direita, como vimos com crimes de ódio nos EUA. Infelizmente, judeus em todo o mundo estão sofrendo, e isso não é justificável.
Muitas das pessoas nos EUA que estavam protestando [contra Israel] eram judeus. E acho que posso falar em nome de muitos judeus americanos que não querem que isso [conflito em Gaza] seja feito em nosso nome.
Alex Soros, 39
É presidente do Conselho da Open Society Foundations. Formou-se em história na Universidade de Nova York e fez doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley. Fez pós-doutorado no Centro Hannah Arendt para Política e Humanidades no Bard College. Ele é o presidente fundador da Bend the Arc Jewish Action e integra os conselhos do Bard College, do Conselho Europeu de Relações Exteriores e do International Crisis Group.
