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A voz de Valéria Almeida, 42, já se tornou familiar para os paulistanos. Seja nas manhãs da Globo ou circulando pelos quatro cantos da metrópole no comando do Paulistando, a jornalista, que nasceu na periferia de Santos, carrega consigo uma missão que definiu ainda adolescente: contar as “boas histórias” que a grande mídia muitas vezes ignorava ao retratar a periferia.

Formada pelo “método Caco Barcellos” no Profissão Repórter, onde chegou a ser finalista do Emmy Internacional, Valéria hoje equilibra uma rotina intensa que inclui a apresentação do Carnaval e substituições no programa Encontro.

Nesta entrevista, ela fala sobre sua formação, a importância da ancestralidade no seu modo de ouvir e como a tecnologia vai transformar a experiência de quem assistir aos desfiles deste ano.

Como está a rotina nesse período de cobertura de Carnaval? 

No pré-Carnaval, estava fazendo as visitas aos barracões com a equipe e, aos finais de semana, indo para os ensaios técnicos. Durante a semana, ficava em casa estudando o material que as escolas de samba passam. São catorze escolas do Grupo Especial, então catorze apostilas para a gente estudar as fantasias, os carros alegóricos, as comissões de frente, o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Então, é conteúdo vasto que exige uma dedicação. E, no meio disso, eu também cubro as férias da Patrícia Poeta no Encontro. Eu tenho a sensação, quando eu falo tudo isso, de que eu tenho a capacidade de transformar 24 horas em 48.

O que prepararam para a cobertura dos desfiles? 

Estamos ampliando a forma da cobertura, porque estou com o Everaldo Marques nos estúdios, que foi preparado de um jeito que está muito encantador. Ele tem muita tecnologia para fazer a gente ficar imerso na avenida ao mesmo tempo que todos os comentaristas estão lá. Vai ter o Ailton Graça e o Milton Cunha do Anhembi. É a primeira vez que vamos seguir nesse modelo, estamos com a expectativa alta. 

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Como começou seu interesse no jornalismo como carreira? 

Decidi ser jornalista muito menina, porque eu nasci e cresci em um bairro periférico, que era sempre colocado no jornal como um lugar de violência. E ela existia mesmo, assim como uma série de problemas sociais, de falta de acessos. Mas também existiam muitas histórias incríveis. E eu queria contar essas histórias. Eu também olhava no jornalismo, dentro da minha ausência de possibilidades, um caminho para conhecer o mundo, outras pessoas e culturas. Quando fiz vestibular, a gente podia escolher três alternativas e em todas coloquei jornalismo, só mudava o horário (risos). 

Trabalhar na televisão foi sempre um sonho ou uma descoberta? 

Então, eu não pensava: “Vou ser jornalista para trabalhar na TV”. Eu queria ser uma contadora de histórias independente do meio em que pudesse contar. Acho que isso me permitiu experimentar muitas coisas. Já trabalhei em assessoria de imprensa, em revistas, até chegar o convite do Caco Barcelos. Depois, fui comentarista de rádio, realmente não fico fechada, estou muito aberta às possibilidades que a profissão permite. Mas, me encontrei muito na televisão. 

Como veio esse convite para o Profissão Repórter?

O Caco Barcelos queria montar uma equipe de vídeo-jornalistas que viajassem o mundo com uma câmera na mão. Naquele momento, eu trabalhava com fotojornalismo e ele me chamou por conta desse entendimento em fotografia. Desde então, fui produtora, roteirista na TV. Roteirizei a série da Karol Conká no Globoplay e fiz a produção, junto com uma equipe incrível, do documentário Falas Femininas. No Falas Negras, estava no roteiro e apresentação. Hoje, estou mais dedicada a estar mais à frente do vídeo, o que demanda muita energia e muita entrega. 

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Quais são suas maiores referências no jornalismo? 

Eu tenho muitas referências. A Glória Maria, a Zileide Silva, Maju Coutinho, que admiro pelo talento e dedicação. E o Caco Barcelos, que é interessante, porque quando menina eu via o trabalho dele, aquela pessoa muito inalcançável e, de repente, tinha ele como um mestre, um parceiro de trabalho. Ele mesmo não se coloca como mestre, apesar de chamarmos assim, porque se coloca sempre como um aprendiz. Isso é um exemplo para mim, de ser uma pessoa com os pés no chão e muito apaixonada pelo que faz.

O Paulistar está indo para o segundo ano. O programa mudou a sua relação com São Paulo? 

Quando eu cheguei na cidade, como muita gente em busca de oportunidades, eu fiquei encantada. Eu falo isso e meus amigos riem, mas eu parava no alto da Avenida 23 de Maio e ficava admirando o trânsito. O encanto é a pluralidade de São Paulo, você anda e vê muita gente diversa. E o Paulistar me permite acessar ainda mais essas diferentes culturas. Em um momento, eu estou no Capão Redondo, vivendo uma cultura marcada pela população nordestina, aí vou para Parelheiros comer em um local colonizado por alemães, e ao mesmo tempo lá tem área quilombola e indígena. Toda vez que volto para casa parece que fiz uma viagem, porque eu conheci uma dança nova ou uma comida típica. 

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