A promessa do bitcoin (BTC) como “ouro digital” está se desfazendo à medida que traders abandonam o token em favor da disparada dos metais, enfraquecendo uma narrativa que antes definia o apelo macroeconômico do ativo.

A mudança é visível não apenas nos movimentos dos ativos, mas também em para onde o capital está fluindo – de fundos tradicionais para plataformas de negociação baseadas em blockchain. Na última semana, fundos de metais preciosos absorveram US$ 1,4 bilhão em novos aportes, enquanto fundos ligados ao bitcoin registraram cerca de US$ 300 milhões em resgates, à medida que o token recuou para perto de US$ 86.000. Ao mesmo tempo, o ouro à vista ultrapassou US$ 5.500, e a prata rompeu os US$ 118 por onça, impulsionados por uma mínima de quatro anos do dólar e por tensões geopolíticas.

Para um grupo de investidores que antes acreditava que código de computador era superior ao metal reluzente, o recente período de fraqueza do dólar foi um chamado definitivo à realidade: o bitcoin falhou em atuar como proteção macroeconômica justamente quando a chamada operação de “debasement” (redução do valor intrínseco das moedas) voltou a ganhar força.

Plataformas cripto como a Hyperliquid ainda veem a maior parte de seu volume vinculada a tokens nativos e memecoins, mas também se tornaram termômetros improváveis dessa mudança macro mais ampla. Em um intervalo de 24 horas nesta semana, mais de US$ 1 bilhão em contratos futuros de prata foram negociados – quatro vezes o volume do segundo contrato mais negociado, ligado a um índice de ações. Na exchange rival Ostium, commodities – principalmente perpétuos de ouro e prata, ou “perps” – agora representam cerca de 80% dos contratos derivativos não liquidados (interesse em aberto).

Perps são derivativos nativos do universo cripto que imitam contratos futuros, mas não têm vencimento, permitindo que traders mantenham posições alavancadas em tempo integral – o que é ideal para expressar visões macroeconômicas sem atrasos de câmaras de compensação. Essa velocidade os transformou em um indicador preciso do apetite especulativo nesse segmento em rápida expansão das finanças de varejo.

“Nossos traders são em grande parte baleias nativas do mundo cripto que começaram no mercado de criptomoedas e, nos últimos seis a nove meses, migraram cada vez mais para outras classes de ativos, especialmente commodities”, disse Kaledora Fontana Kiernan-Linn, cofundadora da Ostium. A porcentagem de interesse em aberto relacionada a cripto na exchange caiu para cerca de 5% nos últimos meses, segundo ela.

A “operação de debasement” é a ideia de que o bitcoin deveria subir quando o dólar enfraquece, funcionando como uma proteção contra a inflação ou a erosão cambial. Trata-se de uma teoria que ganhou força durante a pandemia, quando temores de impressão descontrolada de dinheiro impulsionaram tanto o mercado cripto quanto o ouro. Mas, desta vez, enquanto o dólar caiu, o ouro subiu e o bitcoin não acompanhou. A correlação de 30 dias entre os dois caiu para -0,18, sugerindo que agora eles se movem em direções opostas.

Enquanto isso, carteiras cripto – antes usadas apenas para tokens – oferecem acesso direto a perpétuos de metais preciosos, reforçando a percepção de que os metais estão ganhando tração junto à base central de investidores digitais.

O sentimento no mercado se divide entre a busca oportunista por momentum e uma rendição mais profunda e visceral. Embora muitos traders estejam simplesmente seguindo o “FOMO” (medo de perder uma oportunidade, na sigla em inglês) em direção aos metais, um grupo significativo passou a demonstrar frustração com a incapacidade do bitcoin de funcionar tanto como uma operação de momentum quanto como proteção durante um mês de forte fraqueza do dólar.

“O foco em commodities nas últimas semanas faz muito sentido”, disse Laurens Fraussen, analista de pesquisa da plataforma de dados em blockchain Kaiko. “Os mercados cripto operam 24 horas por dia, 7 dias por semana, e finalmente existem plataformas líquidas para negociar essas commodities.”

A Hyperliquid tem sido a mais proeminente de uma nova leva de plataformas nativas do mundo cripto que oferecem perps sobre tudo, de tokens a commodities, ações e participações pré-IPO. À medida que os perps não cripto ganham tração, até mesmo exchanges centralizadas como a Coinbase e a Binance começaram a avançar para contratos futuros atrelados a ativos tradicionais.

“Estamos percebendo que os volumes em prata são significativamente maiores do que em ouro, o que destaca a tendência inerente dos traders cripto de perseguir o próximo melhor beta”, disse Fraussen. “Também estamos vendo movimento em direção ao cobre, antecipando a próxima ‘rotação’.”

O aumento do interesse por perps não cripto ocorre enquanto o mercado de ativos digitais ainda não apresenta uma recuperação significativa após uma queda no início de outubro que eliminou cerca de US$ 19 bilhões em ativos em um único dia. Isso ajuda a explicar por que o bitcoin ficou atrás das ações e dos metais durante a atual fase de apetite por risco. A demanda por esses novos produtos também ganhou força no fim do ano passado, quando um contrato ligado à Nasdaq, conhecido como XYZ100, começou a chamar atenção.

“A fraqueza relativa do mercado cripto levou muitos traders on-chain a migrar para a negociação da força relativa dos metais”, disse Charlie Ambrose, cofundador da Felix, uma das startups na Hyperliquid que oferecem produtos de perps de commodities.

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