A revisão do Plano Diretor de Curitiba, prevista para ser concluída ainda neste ano, recoloca no centro do debate temas sensíveis para o futuro da cidade: acesso à moradia, mobilidade, adensamento urbano e uso eficiente da infraestrutura. Considerado o principal instrumento de planejamento urbano, o plano define como a capital vai crescer — e para quem ela será planejada.
À frente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Paraná (ADEMI-PR), Maria Eugenia Fornea acompanha de perto esse processo e tem participado ativamente das discussões técnicas e institucionais. A entidade representa o setor imobiliário, diretamente impactado pelas regras que orientam o desenvolvimento urbano.
Nesta entrevista à Tribuna do Paraná, a executiva analisa os principais desafios da revisão, aponta distorções do modelo atual e defende mudanças para ampliar a oferta de moradia e tornar a cidade mais eficiente e inclusiva. Confira a entrevista a seguir.
Tribuna do Paraná: Para começar, como a senhora define o Plano Diretor e sua importância para a cidade?
Maria Eugenia Fornea: O Plano Diretor organiza a cidade no tempo e no espaço e orienta decisões públicas e privadas. Ele conecta uso do solo, mobilidade e infraestrutura. Quando bem calibrado, reduz desigualdades e melhora a eficiência urbana. Quando não está, gera distorções — e essas distorções acabam sendo pagas pela população.
O que mudou em Curitiba desde a última revisão que torna esta atualização estratégica?
A cidade real seguiu um caminho diferente do planejamento. Tivemos expansão metropolitana, baixa densidade em áreas estruturadas e aumento do custo da terra. A produção de moradia não acompanhou a demanda. Isso mostra que o plano perdeu capacidade de indução e a cidade respondeu por caminhos menos eficientes.
Qual o risco de manter esse cenário?
Continuar crescendo de forma desordenada, mais cara e mais desigual. Quando o planejamento não funciona, a cidade se organiza sozinha – e quase nunca da melhor forma.
Como conceitos como inclusão, sustentabilidade e resiliência se traduzem na prática?
Esses conceitos significam eficiência territorial. Inclusão é acessar boas localizações, não apenas produzir unidades. Sustentabilidade é reduzir deslocamentos. E resiliência é preparar a cidade para mudanças. No dia a dia, isso significa menos tempo no trânsito e mais acesso à cidade. Caso contrário, viram apenas discurso.
A participação popular tem sido efetiva?
A participação é importante, mas o desafio está na execução. Existe uma diferença clara entre escutar, planejar e implementar. Muitas vezes, a política é bem desenhada, mas não chega à ponta. Sem capacidade de execução, a participação perde força e o plano não se materializa.
O setor imobiliário tem conseguido participar dessas discussões?
Sim, de forma técnica e estruturada. O setor contribuiu com propostas concretas e participou das audiências públicas. Há abertura ao diálogo, o que é positivo.
O ponto crítico está onde?
Em transformar esse diálogo em regra aplicável. Se não virar diretriz implementável, o debate fica no papel e a cidade continua sem resposta.
O ideal de “não deixar ninguém para trás” é viável?
É um princípio importante, mas a realidade mostra o contrário. Curitiba já perdeu parte da população para a região metropolitana por falta de moradia acessível. Isso não foi escolha, foi falta de opção. E quando isso acontece, o discurso perde força diante dos fatos.
O Plano Diretor resolve esse problema?
Não sozinho. Ele precisa vir acompanhado de instrumentos viáveis. Sem escala, segurança jurídica e produtividade, o plano não inclui: ele apenas organiza a exclusão.
O adensamento ao longo dos eixos de transporte ainda faz sentido?
Faz, e hoje é essencial. Ele aproxima moradia, trabalho e serviços, reduz deslocamentos e melhora a eficiência urbana. Sem densidade, o transporte público perde viabilidade e a cidade fica mais cara. Densidade deixou de ser escolha e virou necessidade.
Há um risco nesse modelo?
Sim, se for seletivo. Sem diversidade de renda, o adensamento não resolve o problema; ele apenas muda o endereço da desigualdade.
Onde Curitiba ainda pode crescer com infraestrutura adequada?
Principalmente em áreas centrais e eixos estruturais, como a Linha Verde e a Marechal Floriano. São regiões com infraestrutura instalada e subutilizada. O problema não é falta de espaço: é falta de uso eficiente do que já existe.
Como equilibrar crescimento e qualidade de vida?
Qualidade de vida não depende de baixa densidade, mas de bom desenho urbano. Serviços, mobilidade e espaço público são determinantes. Densidade com planejamento gera vitalidade. Sem planejamento, gera conflito. O problema nunca foi a densidade é a forma como ela é feita.
Prédios mais altos são uma necessidade?
Em áreas estruturadas, sim. Eles permitem aproximar moradia e trabalho e reduzem deslocamentos. Não se trata de verticalizar por verticalizar, mas de usar melhor a cidade. O debate não é sobre altura, é sim sobre eficiência urbana.
A flexibilização de regras pode reduzir o custo da moradia?
Pode ajudar, mas não resolve sozinha. O custo está ligado a um conjunto de exigências urbanísticas que reduzem a eficiência dos projetos. Sem revisar esses parâmetros, a conta não fecha. E quando não fecha, a moradia deixa de ser acessível.
Existe risco de verticalização excessiva?
O risco não é verticalizar, é continuar usando mal o território. Curitiba investiu em infraestrutura, mas não ocupou na mesma proporção. Isso gera uma cidade mais cara e mais excludente. O problema não é crescer, mas, crescer sem integrar.
O Plano Diretor pode melhorar o acesso à moradia?
Pode, mas depende de viabilidade e escala. Hoje existe demanda e recurso, mas falta conexão entre esses elementos. Sem ajustar essa equação, a produção continua baixa. E quando a produção é baixa, o acesso também é.
Qual o papel do setor privado nesse cenário?
O setor tem capacidade de produzir em escala e gerar impacto econômico relevante. Mas precisa de condições adequadas e previsibilidade. Sem isso, a produção não acontece. E sem produção, o déficit permanece – independentemente da intenção.
Que cidade pode surgir dessa revisão nos próximos anos?
Uma cidade mais compacta, integrada e eficiente, com melhor uso da infraestrutura e mais acesso à moradia. Esse é o potencial.
E o principal risco?
Manter o distanciamento entre planejamento e realidade. Nesse cenário, a cidade continua crescendo, mas sem incluir. E uma cidade que cresce sem incluir é, inevitavelmente, uma cidade mais desigual.



