Um vazamento de óleo na pista principal do Aeroporto Santos Dumont, na madrugada da terça-feira, causou atrasos e cancelamentos de 162 voos — 80 chegadas e 82 partidas — e só permitiu a retomada das operações no início da noite, após cerca de 12 horas de interrupção. Além dos cancelamentos, outros 14 voos foram redirecionados para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador. Até o momento, a Infraero não informou qual substância foi derramada, nem detalhou os procedimentos de limpeza utilizados, nem se abriu investigação sobre o incidente. Especialistas alertam que, se a substância não tiver sido tratada corretamente, isso pode ter contribuído para a demora na reabertura e gerado riscos de acidentes ou contaminação ambiental.
O incidente ocorreu durante manutenção preventiva noturna, fora do horário normal de operação (6h às 23h). Segundo a Infraero, o vazamento teve origem no motor de um caminhão “desemborrachador”, usado para remover borracha da pista e preparar o pavimento para novas sinalizações. Desde a madrugada, equipes atuaram na limpeza utilizando desengraxante biodegradável e água de carros contraincêndio com jatos de alta pressão. A empresa afirmou que todos os recursos disponíveis foram mobilizados para liberar a pista com segurança.
Apesar da reabertura do Aeroporto Santos Dumont na noite desta terça-feira, muitas questões sobre o vazamento de óleo ainda não foram esclarecidas. A seguir, os principais pontos que ainda precisam de resposta:
Qual produto foi derramado na pista?
A limpeza de uma pista afetada por óleo exige protocolos rigorosos. Geraldo Portela, engenheiro e especialista em gerenciamento de riscos, explica que é essencial identificar qual produto foi derramado, já que cada substância tem procedimento específico de remoção definido na Ficha de Dados de Segurança (FDS). A FDS, segundo ele, é elaborada pelo fabricante do produto químico, conforme exigências da ABNT NBR 14725 e da legislação de segurança do trabalho no Brasil, e indica como manusear, armazenar, limpar e descartar o produto com segurança.
— Cada produto químico tem uma Ficha de Dados de Segurança (FDS), que indica se é inflamável, tóxico, explosivo, se pode gerar incrustações e qual técnica usar para remoção sem poluir o meio ambiente. Por isso, não deveria ser normal uma mancha de óleo levar tanto tempo para ser removida — detalha Portela.
Qual foi a sequência exata adotada na limpeza e a avaliação da eficácia da limpeza?
Nestes pontos, é necessário saber se houve apenas jateamento de água, uso de desengraxante, serragem ou combinação de técnicas. Além disso, é preciso saber se o método utilizado foi adequado para o volume e tipo de óleo derramado.
Segundo Portela, é possível que o caminhão tenha se deslocado pela pista, espalhando o óleo por uma área extensa. Isso, aliado à falta de detalhamento público sobre o produto e a sequência de limpeza — se houve uso de desengraxante, serragem ou apenas jateamento de água — dificulta avaliar se o procedimento foi seguro.
Houve falta de manutenção do caminhão desemborrachador?
Ainda não se sabe se houve falha de equipamento, uso incorreto ou falta de manutenção no veículo que provocou o vazamento. A máquina é usada para remover borracha da pista — deixada pelos freios de pouso das aeronaves, melhorando o atrito ou tirando antigas sinalizações do chão para uma nova marcação.
Houve abertura de investigação?
Até o momento, a Infraero não detalhou ao GLOBO se instaurou uma investigação sobre o vazamento.
Impacto em outros aeroportos
O incidente afetou a ponte aérea Rio-São Paulo e outros destinos. Em Congonhas, 18 voos com origem ou destino ao Santos Dumont foram cancelados — 13 chegadas e cinco partidas — e algumas partidas com destino ao Rio foram redirecionadas para o Galeão. Ajustes de malha das companhias aéreas resultaram ainda em 12 cancelamentos adicionais com outros destinos. O funcionamento do Aeroporto de Brasília também foi impactado, com quatro voos cancelados em chegada e quatro em partida até as 11h50.
O fechamento do Santos Dumont provocou grande transtorno aos passageiros. Entre eles, Maria Freire, 23, e Louise Gomes, 40, da área comercial de uma seguradora. Elas e sua equipe de cerca de 20 pessoas tinham voo para São Paulo às 6h50, com reunião marcada para as 9h, mas acabaram desembarcando após horas de espera dentro da aeronave.
— É uma equipe grande e agora todos nós estamos aqui sem saber o que fazer. Nossos clientes estão esperando lá e já perdemos a reunião — disse Maria Freire.
Outro passageiro impactado foi Lohran de Oliveira, 35, que trabalhava com construção civil e tinha voo marcado para 8h50 com destino a Brasília, onde deveria supervisionar a construção de uma pista de skate municipal, com entrega prevista até o final de novembro.
Marcelo Gomes, engenheiro, também relatou transtornos. Convidado a embarcar às 6h20, ele e os demais passageiros aguardaram até as 8h, quando foram obrigados a desembarcar. O embarque foi remarcado inicialmente para 10h40, mas só ocorreu às 15h.
— Esta semana eu precisava estar em São Paulo até as 10h. Isso gera impactos não só para minha empresa, mas para o país, já que trabalho em uma multinacional que gera empregos. Falta que a Infraero esteja preparada para incidentes deste nível e que as companhias tenham condições de lidar com situações assim — disse Marcelo Gomes.
