Um problema que bate à porta dos moradores

Nos últimos meses, moradores de diferentes bairros de Guarulhos relatam um aumento expressivo de entupimentos em residências, ruas e bueiros, sobretudo durante as fortes chuvas de verão. De áreas periféricas como Cumbica e Pimentas até regiões centrais, os relatos se repetem: água acumulada, esgoto retornando e mau cheiro constante.
De acordo com dados preliminares da Prefeitura de Guarulhos, os chamados relacionados a entupimentos cresceram cerca de 18% em 2024 em comparação com o período homólogo. A Sabesp também confirma a tendência: somente em janeiro e fevereiro de 2025, já foram registradas mais de 12 mil solicitações de atendimento na cidade, um volume considerado acima da média histórica.

Por que os entupimentos estão aumentando?

Segundo engenheiros sanitaristas consultados pela reportagem, o problema é multifatorial.

“A rede de esgoto de Guarulhos, em muitos trechos, é antiga e não foi planejada para o crescimento populacional acelerado que a cidade viveu nas últimas décadas”, explica Ricardo Nogueira, engenheiro especializado em saneamento urbano.

Além da infraestrutura defasada, o descarte inadequado de lixo e óleo de cozinha agrava a situação. Sacolas plásticas, embalagens e até móveis descartados irregularmente acabam nos bueiros, reduzindo a capacidade de drenagem das galerias.

A Defesa Civil destaca que bairros em áreas de risco, como Jardim São João e Parque Continental, são os mais afetados porque já sofrem naturalmente com alagamentos.

O que dizem as desentupidoras locais?

Empresas que atuam no setor também confirmam a tendência de aumento.

“Nos últimos dois anos, nossa demanda cresceu mais de 30% só em Guarulhos. As chamadas de emergência em dias de chuva dobraram”, afirma Marcos Oliveira, proprietário de uma desentupidora em guarulhos, que atua na região da Vila Galvão.

Segundo os profissionais, a maioria dos atendimentos poderia ser evitada com manutenções preventivas simples, como limpeza periódica de ralos e calhas. Mas a cultura de agir apenas em emergências ainda predomina.

Qual o impacto ambiental do problema?

Ambientalistas alertam que o aumento dos entupimentos não se reflete apenas em transtornos domésticos, mas também em sérios impactos ambientais.

“Quando o lixo e o óleo chegam à rede de esgoto e às galerias pluviais, eles acabam alcançando córregos como o Taboão e o Baquirivu-Guaçu, já sobrecarregados. Isso piora a qualidade da água e contribui para enchentes”, explica Juliana Mendes, integrante do coletivo Guarulhos Verde.

De acordo com ela, cada litro de óleo de cozinha jogado na pia pode contaminar até 25 mil litros de água, além de atrair pragas urbanas.

O que a população pode fazer para ajudar?

Embora os desafios estruturais dependam do poder público, especialistas reforçam que os moradores também têm papel essencial. Algumas medidas recomendadas:

  • Nunca descartar lixo ou entulho em bueiros e vias públicas.
  • Guardar o óleo de cozinha usado em garrafas PET e levar a pontos de coleta da Prefeitura de Guarulhos.
  • Instalar peneirinhas em pias para reter restos de comida.
  • Limpar ralos e calhas ao menos duas vezes por ano.
  • Em imóveis antigos, verificar o encanamento com regularidade.

“Se cada família adotar esses cuidados, já teremos uma redução significativa nas ocorrências”, destaca o engenheiro Ricardo Nogueira.

Quais ações o poder público está tomando?

A Prefeitura de Guarulhos afirma que tem intensificado ações de fiscalização contra o descarte irregular de lixo e promovido campanhas de conscientização em escolas e associações de bairro.
Segundo nota enviada à reportagem, estão em andamento obras de drenagem em áreas críticas como Jardim Ottawa e Jardim Ponte Alta, com previsão de conclusão até o fim de 2025.

A Sabesp, por sua vez, informou que está ampliando equipes de atendimento emergencial e modernizando trechos da rede de esgoto, além de reforçar a importância de que a população acione os canais oficiais de atendimento em caso de entupimento coletivo.

O futuro: colaboração é a chave

Os especialistas ouvidos pela reportagem concordam: os entupimentos em Guarulhos são reflexo da combinação entre infraestrutura defasada, crescimento urbano acelerado e maus hábitos da população.
Sem mudanças no comportamento dos moradores e investimentos contínuos do poder público, a tendência é que o problema se agrave nos próximos anos, especialmente diante das mudanças climáticas que intensificam os períodos de chuva.

“Não há solução mágica. É preciso um esforço conjunto entre cidadãos, empresas e autoridades. Só assim poderemos reduzir os riscos e garantir uma cidade mais resiliente”, conclui a ambientalista Juliana Mendes.