
A Copa do Mundo mais mundial da história pode colocar no caminho do Brasil um encontro com seu passado. O Benim depende apenas de si, nesta terça-feira (14), às 13h, para se classificar pela primeira vez ao mundial. Visita a Nigéria, em Uyo e, vencendo, garante vaga.
Não é de graça que um dos principais nomes da seleção se chama Sessi D’Almeida. Benim foi destino do movimento do final do século XIX conhecido como Diáspora Africana.
Muitos escravizados libertos com a Lei Áurea decidiram tomar o caminho de volta e rumaram ao país. Desembarcaram no porto de Ouidah, o segundo maior porto de partida de escravos para o Brasil, atrás apenas de Luanda, e fizeram de Porto Novo uma cidade com traços fortes do Brasil. Quem visita cidade se impressiona com traços de semelhança com Salvador, na arquitetura e nas pinturas nas paredes.
A influência está, inclusive, na Grande Mesquita. Como em ato de contraposição ao que haviam vivido no Brasil, quando foram convertidos ao catolicismo pelos senhores, os africanos se converteram ao Islã e contribuíram na construção dos templos. Porém, o conhecimento de construção que tinham adquirido aqui era de igrejas.

Quem faz a seleção beninense
Esse Benim que fala francês e tem traços brasileiros tem no comando da seleção um alemão de 72 anos que foi companheiro de Beckenbauer, Gerd Muller, Breitner, Sepp Maier e Hoennes no Super Bayern de Munique do começo dos anos 1970.
Nos últimos 15 anos, Gernot Rohr passou a comandar seleções africanas. Passou por Níger, Gabão, Burkina Faso e ficou cinco anos no comando da Nigéria. Assumiu Benim no começo de 2023 e pode realizar a proeza de colocar na Copa uma seleção que nem na elite africana figura.
Apesar do apelido recomendar o contrário, Cheetahs (guepardo), os jogadores são, em sua maioria, de clubes da terceira linha da Europa. Alguns atuam em países africanos mais tradicionais, como Nigéria e Marrocos.
O destaque do time é o atacante francês Andréas Hountondji, do St Pauli, da Alemanha. Seu irmão, o zagueiro Cèdric, é outro destaque, joga no Bardimaspor turco. D’Almeida, outra referência, atua no Azerbaijão.
As consequências da escravidão
Se eles colocarem os Cheetahs na Copa, estaremos diante da seleção com o IDH mais baixo a disputar a competição. O IDH é o índice usado para avaliar a qualidade de vida e o bem-estar da população de um país. Leva em conta educação, renda e saúde.
O Benim ocupa a posição 173. São 193 neste ranking, reflexo de um país essencialmente agrário, onde sete de cada 10 pessoas trabalham no campo, e que sofre com as mudanças climáticas. O resultado disso é de que quase 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.
É inegável que muito disso é herança do tráfico humano entre os séculos XVI e XIX, que trouxe para o Brasil mais de 4 milhões de escravos. Estima-se que um quarto desse contingente saiu do porto de Oudiah. Uma pequena parte voltou e levou traços de Salvador para lá. A Copa pode, em 2026, conectar essas duas pontas.
